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LIVRO EM PREPARAÇÃO:

 

OLÁ JUVENTUDE

 

A inteligência é uma fonte inesgotável. Quanto mais se usa, mais ela dá respostas surpreendentes.

O homem, sendo o mais inteligente, é o mais irracional dos animais. Possui raciocínio e 

usa-o para se destruir e ofender.

Destrói-se fazendo guerras absurdas na tentativa de obter pela força aquilo que não consegue através do mérito.

Ofende-se deixando que a ignorância se espalhe como a sarna ou a sida, e não lhe acode como faz a estas doenças.

Ofende-se porque a ignorância faz que o ser humano viva na miséria e na degradação mais abjecta e de todo contrária ao estatuto de ser humano.

Por que esta irracionalidade, do pseudo racional, sempre me fez muita confusão, dei largas ao instinto para equilibrar o racional irracional que sempre senti e me faz ter desejos e vontades que eu não quero ter porque agridem os outros.

O meu irracional é muito forte e só puxando-lhe violentamente as rédeas ele não actua pior do que deseja actuar.

Este livro é o percurso de um irracional racional que continua a pensar que os guerreiros de antigamente e os dos nossos dias são homicidas comandados que acatam as ordens de chefes loucos que os condecoram para que assassinem os seus semelhantes. Estes assassinos, a coberto da lei, são autorizados a matar e a morrer para satisfazer os impulsos que não conseguem dominar.

Apesar do que acabei de afirmar, todos somos deuses criadores que não acreditamos nas nossas potencialidades. Todos somos capazes de atingir os objectivos, que idealizamos, a partir do nada.

Quem acredita nos seus poderes e nas suas capacidades usufrui a vida com a certeza de que os seus direitos são ilimitados e que pode atingir, no campo do bem, do amor, da inteligência e da riqueza, tudo quanto desejar desde que estude e raciocine sobre aquilo que pretende.

Hoje, quase tudo está inventado, assim, podemos aproveitar esses conhecimentos para os desenvolver, aperfeiçoar ou criar as condições que nos interessam e ao mundo envolvente.

Há algo que tem de interessar a todos sob pena deste mundo se desfazer pela indignação: a pobreza e a miséria não são admissíveis num mundo onde os recursos são imensos e muitas vezes estão totalmente desaproveitados ou mal distribuídos.

Há duas formas essenciais para fazer sair o ser humano da lama onde nasceu e onde vive: a instrução e a educação.

Pela instrução ele adquire o conhecimento e o saber; pela educação atinge o nível moral, intelectual e físico que há-de fazer dele um ser perfeito.

Os Governos dos países ricos e desenvolvidos ao enviarem toneladas de alimentos, para os esfomeados de África, fazem-no como quem alimenta animais de abate ou de combate. Estes Governos não querem estes desgraçados nem instruídos nem educados, se quisessem resolveriam rapidamente este flagelo.

As campanhas de instrução e educação podem ser levadas a cabo através da Internet, da televisão e apoiados por milhares de reformados que em vez de esperarem a morte a olhar para o sol, aceitariam, por remunerações simbólicas, ensinar a desenvolver aquelas regiões enquanto através dos meios de comunicação se insistia na instrução geral e na educação.

O dinheiro, que os países ricos gastam nas ajudas alimentares mal sucedidas e na entrega de milhões de dólares, a Bokassas insaciáveis, daria para acabar com a miséria e a pobreza.

Os países ricos e desenvolvidos precisam de povos menores e infelizes para experimentar as suas armas até que elas se voltem contra eles próprios; veja-se o caso do Afeganistão ou do Iraque a quem os Estados Unidos forneceram armas sofisticadíssimas.

Foi para entender tudo quanto acontece e por que acontece, neste mundo, que o meu percurso se fez sempre com os olhos postos no outro: por que é que eu tinha isto e o outro não tinha? Por que é que eu era feliz e o outro não era? Por que é que as guerras se desencadeavam se os homens tinham a fala para se entenderem? Estas e outras questões condicionaram a minha vida e fizeram que eu escrevesse algumas dezenas de livros nos quais tentei aproveitar os anseios das pessoas com menos cultura e menos compreensão dos acontecimentos para os informar e incitar a atingir níveis superiores de modo a poderem viver sem dificuldades e mais felizes.

Neste livro descrevo parte do meu percurso neste mundo e os meus anseios. As minhas tentativas para chegar ao zero e a partir daí reconstruir a vida só para compreender as dificuldades. Já bati no fundo.

 

O século XXI será o teu e o meu século.

Vamos utilizar a inteligência para vencer as dificuldades. Nunca tenhas receio dos chamados bloqueios do pensamento, de não seres capaz de raciocinar correctamente em momentos decisivos. O bloqueio é um terror irracional que impede de resolver até os pequenos problemas.

 

Usa e abusa da inteligência. Aplica-a sem medo. Usa e abusa do pensamento, do raciocínio, da imaginação. Nunca te enerves, nunca te precipites nas escolhas, nas compras, nos empregos. Pensa, raciocina, decide. Sê feliz sem seres inconsciente ou pateta. 

A inteligência aumenta à medida que aumentas o teu conhecimento. Como disse no início: a inteligência é uma fonte inesgotável, com ela tu atinges todos os teus objectivos. A memória é o assessor da inteligência. Para teres boa memória basta tentares fixar assuntos de interesse e que tu penses mais complicados do que o normal. Ter boa memória é uma questão de aprendizagem. Insiste uma, duas, dez, quinze vezes e faz assim sempre que pretendas saber mais, ao fim de um certo tempo já te bastam três ou quatro leituras para fixar tudo com muita facilidade. Repara nos actores. Eles decoram páginas e páginas de texto. Têm melhor memória do que tu? Não. Treinaram. A memória ajuda a inteligência. As comparações e as deduções são muito mais rápidas. O raciocínio torna-se fluente.

 

Partir do zero é o que eu faço quando escrevo romances, poemas, peças de teatro, ensaios, crónicas em jornais, conferências.

Criar novas formas de trabalho ou de lazer tem custos mínimos; basta um pouco de cultura, muita vivência, muito à vontade, algum estudo, lápis, papel e, se possível, um computador.

Aproveitar desperdícios, inventar maneiras não poluentes de fabricar utensílios indispensáveis à vida humana, nunca desistir de aumentar o progresso e o bem-estar humanos é outro meio para alcançar objectivos.

 

No mundo há ainda muito a descobrir, muito a inventar. Quem não tem outro trabalho, inventa. Muitas companhias americanas, japonesas, alemãs, holandesas e outras dão prémios aos empregados que melhorarem a produção com pequenas inovações. É sempre possível inovar. É sempre possível ter novas ideias e descobrir produtos úteis para a humanidade.

 

Vender ideias dá lucros enormes. Com ou sem ajuda do Estado, inventa processos que façam evoluir os países e desenhem a felicidade das pessoas.

Não guardes nem escondas o que inventares. Não sejas egoísta, não queiras tudo só para ti; primeiro, porque não lucras nada com isso, segundo, porque à hora da morte estás cheio de remorsos e o dinheiro fica cá todo para os familiares te esquecerem o mais rápido possível e aqueles a quem prejudicaste te rogarem tantas pragas que nunca mais paras de dar voltas na tumba.

Vende os teus projectos; entrega-os para benefício do mundo. Deixa voar a tua inteligência.

Ser diferente é ser mais inteligente que os outros.

A inteligência é o aperfeiçoamento e o desenvolvimento das nossas capacidades.

Ao entrarmos neste mundo todos trazemos um painel fabuloso de instrumentos que têm a sua localização na cabeça, daí a frase frequente dos professores: “puxa pela cabeça”.

Alguns dos homens mais inteligentes e que mais fizeram pela humanidade, quando jovens, e já bem adultos, ninguém acreditava neles; nem pais, nem professores.

Einstein reprovou várias vezes e foi considerado incapaz. Mas tens outros: Churchill, Volta, Darwin, Picasso, Edison, Ford, Newton, Puccini, Zola, etc, etc, na juventude eram considerados verdadeiras nulidades. Cito-os no livro “Doenças que as Plantas Curam”.

 

Acredita em ti. Faz um pequeno esforço e verás que a vida é um prazer aliciante e permanente.

 

Queres uma ideia para um invento?

 

Quando se escreve, um dos grandes medos de quem começa, uma das hesitações do escritor é: eu escrevo para quê? Há gente que sabe muito mais do que eu, e já escreveu sobre o mesmo tema ou temas semelhantes. Para quê perder tempo e fazer perder tempo aos outros?

Este pensamento faz desistir muitos escritores. Para que isso não aconteça, e comigo também aconteceu, teria de compensar o leitor caso não lhe agradasse a história.

Durante quatro ou cinco anos, não publiquei poemas ou pequenas novelas que tinha escrito devido a estes preconceitos, só o fiz por razões adiante explicadas. Mas já em miúdo achava que os livros também se deveriam comer. Quem não gostasse da história comia-a. A frustração do escritor seria muito menor e o leitor compensava a sofreguidão do saber, pela gulodice do sabor.

Aqui tens a ideia: inventa o papel e a tinta comestíveis. Pasta de livro, com duração para um ano de espera, como os bolos de mel da Ilha da Madeira. Duraria um ano, depois, só a traça lhe conseguiria meter o dente.

O papel podia ser feito de sementes de trigo ou de qualquer outro cereal, tratado para o efeito. Como tinta serviriam as amoras, as romãs ou outro fruto fixante. Queres algo de mais simples?  

 

Depois de leres este livro, escreve o teu próprio livro. Se nunca escreveste começa por fazer um diário. Ao fim do dia, verás que as ideias e a realidade da vida te aparecem com mais nitidez. Vais-te espantar das tuas asneiras ou até dos teus actos mais nobres. Escreve os teus sonhos. Se conseguires que revistas ou jornais te abram as portas, aproveita. Ao veres as tuas crónicas impressas, sentes mais confiança em ti. Desta maneira, tu participas na vida do mundo, sentes que és alguém, não és mais um animal bio degradável.

 

Akio Morita, o fundador da Sony e inventor de muitos produtos no campo da electrónica, num encontro casual com o meu amigo Manuel Guimarães, disse-lhe que os portugueses eram o povo mais intuitivo e um dos mais inteligentes do mundo.

O português gosta de aprender, mas tem de ter confiança em quem ensina. A falta de produtividade não está na preguiça ou no desinteresse dos portugueses, está no material obsoleto com que trabalham e na incapacidade dos mestres que os orientam. Muitos professores continuam a obrigar os alunos a decorar resmas de papel inúteis em vez de os ensinarem a trabalhar com o que aí está escrito e aprenderem com a vida que os rodeia. A escola tem de ser o lugar onde se deve aprender brincando.

 

Eu acredito no cientista Japonês: em breve passaremos de um país de analfabetos ao país mais alfabetizado, mais culto, mais evoluído e mais civilizado do mundo.

É o analfabetismo e o semi-analfabetismo, em que vive uma boa maioria do povo português, que o faz arrastar pela cauda da Europa. Isso não significa menos capacidade, nem menos inteligência. Significa forçar mais a contemplação para, neste século, resolvermos não só o problema português mas ajudar nos problemas de todos os povos do mundo. Fizemo-lo há quase mil anos quando quisemos ser independentes e nos estruturámos de modo a criar uma nação sólida. Mostrámos todas as nossas capacidades quando nos envolvemos na aventura marítima ao descobrir dois terços do mundo desconhecido e ao edificarmos novas nações. Voltamos a fazê-lo agora com mais saber, consciência e ponderação ao integrarmos a União Europeia.

Foram os portugueses que juntaram os povos dos vários continentes, serão agora os portugueses que, fundidos na Europa, conseguirão a solidariedade e a igualdade mundial. Ou ela, ou uma nova destruição do planeta com mais de 600 milhões de anos e 2,5 biliões de seres, ditos humanos, a viver pior que os animais, ditos irracionais.

 

A diferença entre os australopitecos, ou seja; os primeiros arremedos de homens e o Homo sapiens sapiens, que hoje anda para aí engravatado ou esgravatando o lixo da subsistência, a diferença é mínima; os cérebros equivalem-se, na medida em que, os primeiros tinham crânios pequenos, e não sabiam tirar partido deles. Aos dos nossos dias acontece-lhes o mesmo. Ainda não descobriram que não vivem sós neste planeta. E, se não descobrirem rapidamente, a explosão é inevitável. Aí volta tudo ao príncipio: outros 300 ou 400 milhões de anos a passarmos de poeira a vermes, de vermes a batráquios, de batráquios a bugios, de bugios a australopitecos, de australopitecos a Homo erectus, de Homo erectus a Homo sapiens e de Homo sapiens a esta espécie sempre em vias de extinção logo que tenta, por todos os meios, envenenar o planeta ou destrui-lo com as suas armas de defesa e os seus exércitos de ataque. É a luta do homem contra a Natureza. Enquanto esta, teima em o proteger, para encontrar um parceiro que a fecunde em actos sucessivos de amor. O homem continua a fazer-lhe negaças.

 

O Império Romano, o Mongol, o Persa etc., foram desenhados à espada. O Império Português foi a geminação do conhecido ao desconhecido e a entrada deste, no mundo civilizado. As conquistas, quando as houve, foram motivadas por actos de defesa ou auto defesa quando os povos rejeitavam as nossas propostas de paz e de comércio.

 

Apesar de todos os defeitos dos portugueses tenho a certeza das nossas aptidões.

O Quinto Império tem como base o pensamento e como suporte os canais digitais. A boa utilização de um e dos outros terá, como efeito, o acesso da educação a todos os povos do mundo, a eliminação da miséria e a instauração da paz. Sem que estes três items sejam activados, o ser humano sujeita-se a cataclismos periódicos e devastadores.

 

Pensa por que será que o mundo tem mais de 660 milhões de anos e só há pouco mais de 5 mil anos temos documentos incoerentemente escritos. Não conto as garatujas feitas nos 15 ou 20 mil anos anteriores, apesar da reverência com que são tratadas, em contraste com o desrespeito pelos analfabetos e os miseráveis que sofrem todos os dias por causa da sua incapacidade ou do seu nascimento.

 

Eu acredito nos portugueses.     

 

O país tem de apoiar sempre os melhores. Os melhores são todos, com excepção dos tolos. Todas as hipóteses têm de ser consideradas e os Governos têm de pensar neste sentido. Quando os Governos não o fazem são os cidadãos que têm de se unir para sua defesa. Um dos Governos que melhor protege os seus cidadãos é o Israelita. Como exemplos de outras uniões temos as Igrejas, os Rotários, os Lions, a Maçonaria, a fundação Aga Khan etc., onde os seus membros se protegem uns aos outros. São pequenos Governos dentro de outros Governos. 

Há muitas companhias americanas e Japonesas que têm um orçamento maior do que o do Estado português. Elas fazem a formação dos seus operários É uma questão de boa gerência para um óptimo resultado.

 

Cheguei a pensar em unir os pobres, mas o mal dos pobres é a sua ignorância. Muitos não sabem o que querem. O não saberem ler, escrever, contar, o não saberem raciocinar faz deles farrapos perdidos no tempo. Para unir os pobres tinha de acabar com o analfabetismo e para isso é preciso motivar os governos ou multi-milionários muito poderosos.

A pobreza foi, e continua a ser, a minha grande angústia. A minha dor era tão grande que, no primeiro livro que escrevi, dizia que desejava ser cego para não ver o que me rodeava. Lembro-me como meu pai ficou triste e me reprovou tal desejo. Ele disse-me:

“Tu estás a ser inconsciente e egoísta. Inconsciente porque rejeitas um bem, e egoísta porque tentas fugir à realidade da vida. Se te aflige tanto a pobreza e queres acabar com ela luta para que isso aconteça, mas garanto-te que tens de o fazer de olhos bem abertos. Cego, não terás quaisquer hipóteses de sucesso.”

A miséria que nos rodeia faz de nós verdadeiros excrementos do céu.

Como é possível ser-se democrata ou ter qualquer outro rótulo político e deixar morrer de ignorância e fome mais de dois biliões de seres? Ou democracia é hipocrisia ou democracia é um enorme falhanço político, económico e cultural, assim como o são as outras formas de governo. A miséria não se combate dando, combate-se ensinando.

Em Portugal só a Fundação Gulbenkian, poderia ajudar a resolver rapidamente a situação já que o Governo não tem conseguido atingir os objectivos: erradicar o analfabetismo, e aumentar o gosto pelo conhecimento. A consequência seria uma diminuição, muito grande, dos mais carenciados em virtude dos instrumentos de defesa que lhe seriam fornecidos, logo: aumento da prosperidade do país no seu conjunto. Vejam-se os casos da Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Japão onde, praticamente, não há analfabetos. Verifique-se a prosperidade e o bem-estar desses povos apesar das condições climatéricas que os fustigam.

 

Desde miúdo nunca me conformei em ter amigos ou conhecidos pobres e prometi que, até ao fim dos meus dias, por maiores dificuldades por que passasse, havia de desvendar o porquê desta indignidade que nos mancha a todos e que faz viver, mais de metade dos seres humanos, em condições de escravatura económica e cultural.

Para combater a pobreza teria de conhecer todos os segredos da vida, passar por dificuldades e pelo máximo das profissões.

 

Desvendo-te a minha vida para saberes que todos erramos, mas que todos podemos alcançar o objectivo que perseguimos. Não há santos ou pecadores, todos somos humanos e sujeitos à cegueira da ignorância quando não paramos uns segundos, para utilizar a inteligência.

 

Quando somos crianças sofremos tratos de polé, mas temos as nossas defesas.  

Em criança, salvo quando estamos muito obcecados por uma brincadeira, os nossos sentidos estão sempre alerta. A criança é uma esponja que absorve tudo e tudo tenta descodificar.

Minha mãe magoava-me, sem dar conta disso, quando dizia às amigas e às vizinhas:

- Ele devia ter saído rapariga.

Apesar de criança ficava triste. Não sabia porquê. Para ajudar “à missa”, as amigas respondiam invariavelmente:

- Ele é tão bonito, até parece uma menina.

Para comprovar essa afirmação lambuzavam-me de beijos que eu limpava discretamente ou corria para a casa de banho fazer uma lavagem ultra rápida. Minha mãe encarregava-se de me dar banho duas e três vezes por dia e mudar de fato sempre que eu lhe aparecesse com alguma nódoa ou a cheirar menos bem. Tratava-me como se eu fosse uma menina de verdade.

Minha mãe tinha o sentido do ridículo no feminino. Nunca a vi sair de casa sem a deixar impecavelmente arrumada e ela impecavelmente arranjada.

Nas mulheres notam-se, com mais evidência, as suas fraquezas: se são feias, nota-se mais a fealdade, se são gordas, nota-se mais a obesidade, se fumam nos restaurantes, nota-se mais o fumo, as frustrações e as rugas. É próprio do feminino. O homem é só, e ainda, um prenúncio e uma visão do ser perfeito.

 

Minha mãe tinha dois enormes e simpáticos vícios: ler e fazer renda.

Eu tenho fotografias onde estou de gola de renda. O imperdoável é que as passou a usar nas minhas cuecas e a dar-me bonecas para brincar. Com tanta renda e tanta bonecada não sei como não saí maricas, mas não, pelo contrário a brincadeira com as bonecas fez-me perceber de imediato, a elegância e o cheiro femininos que ainda hoje me fazem tremer de emoção e prazer. Fiquei sempre apaixonado pelas bonecas portuguesas, as mais carinhosas, as mais doces e sensuais, muito comparáveis às tailandesas e às chinesas. Quando desinibidas e loucas são tão calorosas e sensuais como as morenaças africanas.

Graças à D. Lucrécia, minha mãe, aprendi a amar, desde criança, e a respeitar e admirar o ser mais belo que a Natureza produziu.

Eu não me apercebi da gravidade da situação. Brincar com bonecas! Sabem lá o que isso representava nesta diferença de sexos, machista e marialva do touro português, até ao dia em que fui à farmácia do Dr. Edmundo. Estava lá o sr. Fonseca, também conhecido por Casaca de Ferro. Era muito valente e muito rezingão. A garotada adorava-o, ouvia-o como a um oráculo por ser o único que nos parecia levar a sério. Ele olhou para mim e perguntou-me:

- Tens rendas nas cuecas?

- Tenho.

- Isso é só para as raparigas. E tu és?

- Não. Eu sou touro.

- Mostra.

Eu mostrei perante o indisfarçável gáudio dos mais velhos.

- Já vimos. És, és. Os homens não usam rendas. Tira-as.

- Como?

- Puxa, que elas rasgam.

- E minha mãe?

- Diz-lhe que se rasgaram, e tantas vezes se rasgam que ela acaba por compreender que tu és rapaz de verdade.

Eu puxei. As rendas ficaram em mau estado. Pelo caminho parecia já ouvir minha mãe: “Olha que tu apanhas se isto torna a acontecer”, pensei que também devia ter dito ao meu amigo Casaca de Ferro que brincava com bonecas que minha mãe me oferecia quando ia às lojas ou aos mercados.

O meu pai não dizia nada. Ele adorava-me, mas era incapaz de contrariar minha mãe. Ela era a chefe. Nunca os ouvi discutir. Estava sempre de acordo mesmo que, às vezes, minha mãe insistisse na pequena provocação. As mulheres gostam do combate leve, mas ele, nunca deu luta.

Minha mãe batia-me frequentemente, ele nunca interferia.

Nos meus oito anos lembro-me de duas tareias marcantes. Por esse tempo já me distraía de duas maneiras: ou a sonhar histórias ou a querer fazer experiências misturando produtos que nem sempre davam bom resultado e que por duas vezes me chamuscaram as sobrancelhas.

Num dia, propenso ao sonho, depois de tomar o pequeno-almoço, resolvi deitar-me debaixo de um sofá, na sala do primeiro andar. Aí passei todo o tempo a congeminar novos inventos, pequenas escaramuças, histórias de fadas, paraísos terrestres onde toda a gente fazia o que lhe apetecia. Cheguei mesmo a pensar que viver em África ou na Austrália devia ser o máximo: na África ensinava os macacos e os gorilas a trabalhar, assim eles passavam melhor o tempo e nós tínhamos a possibilidade de viajar e de inventar muito mais coisas. Na Austrália os cangurus seriam óptimos mensageiros. Até podiam substituir os carteiros.

Divagando sempre, nunca mais me lembrei do almoço. Meus pais, empregados da empresa de camionagem de que meu pai era um dos proprietários, polícias e outros amigos procuraram-me por todo o lado. Estavam aflitíssimos e conjuravam o pior: “foi raptado, caiu a um poço, anda perdido na mata”. Quando decidi sair do lugar dos sonhos não havia ninguém em casa.

Levei uma sova monumental de minha mãe. Meu pai nunca me bateu.

A outra foi na Quaresma: o amigo Casaca de Ferro convenceu-me, a mim e a mais dois, a pregarmos as saias das velhas, na igreja matriz. Sempre que as matracas fizessem aquele barulho característico; rac,rac,rac,rac e que muitas pessoas imitavam batendo na madeira. Nós, com um bolso cheio de pregos e uma pedra, segundo as instruções do orientador, sempre que as matracas faziam rac, rac, rac, nós traque, traque, traque; íamos pregando as saias das velhas. Quando as mulheres se levantaram foi um pandemónio. O padre Matos olhava-as inquieto, o que estaria a acontecer? Umas, meio despidas e outras de saias rasgadas.

Descoberto o ímpio levei até saciar a cólera de uma mãe, muito amiga, mas ainda longe das práticas pedagógicas dos nossos dias. Pagou todas as saias rasgadas das pessoas que se lamentaram do sucedido e que não tinham achado graça, as outras, que não tinham sofrido o ataque, sufocaram até às lágrimas; barulho não admitia o rigoroso e ilustrado padre Matos. Eu continuei a ser “vítima” da incompreensão dos adultos.

Mas nenhuma sova me servia de emenda. Lembro-me que passado pouco tempo, e também instigado pelo ateu e convincente amigo Casaca de Ferro, despejei um frasco de tinta de sapatos nas pias de água benta. O escândalo foi enorme e as risotas também. De coscuvilhice em coscuvilhice, as velhas, chegaram à conclusão que um dos participantes nas benzeduras, tinha sido eu. Bem neguei, fazendo figas atrás das costas para não ter de me ir confessar e dizer a verdade ao padre. Minha mãe, pelo sim, pelo não puxou-me uma orelha e lá foi dizendo: “se eu descubro que estás a mentir...”

Quando a sova era um pouco maior e aparecia marcado com a escova, meu pai oferecia-me boas prendas que minha mãe contestava.

- Tu é que o estragas. - Mas não adiantava muito mais, nem se opunha à oferta de brinquedos dispendiosos.

De uma sova memorável ganhei, de uma só vez: um automóvel de pedais, que era um sonho, e uma trotinete onde eu atingia velocidades fabulosas. Toda a miudagem da vila andava nela. Fazíamos corridas, para ver qual é que demorava menos tempo, desde o largo da igreja até ao chafariz. Eu ganhava sempre. Não admira, além de gostar de ganhar era o dono da trotinete e treinava em todo o sítio. Numa dessas corridas, na curva do largo da vila, vi que um burro vinha fora de mão, guinei para o outro lado, o dono do burro fez o mesmo. Resultado: fui contra o lancil do passeio, fiquei debaixo do burro, sem a sobrancelha do lado esquerdo e sem a trotinete que não teve conserto, ou meu pai disse que não tinha, para não me acontecer pior.

Apesar de tão mal tratado, o Dr. Moutinho, que me cozeu com 15 pontos, ainda disse:

- É bem feita. Agora a tua mãe devia cascar-te.

Ela abanava a cabeça. Bem lhe apetecia, mas perante o que poderia ter acontecido, conteve-se.

Quando me batia, eu não deitava uma lágrima e não deitei enquanto estava a ser cozido.

Hoje, minha mãe está com mais 90 anos e quando lhe digo que exagerava, ela, com aquele ar gaiato, que ainda mantém, mão levantada, continua na sua: “ainda foram poucas. Só se perderam as que caíram no chão.”

As sovas que levei tornaram-me insensível à dor: grandes ou pequenos com quem me envolvesse à pancada sabiam que tinham um adversário, aparentemente frágil, mas muito duro. Por estranho que pareça, nunca fiquei zangado mesmo quando me chegavam a roupa ao pêlo.

 

Minha mãe avisava-me, imensas vezes, para não mexer, não tirar, não estragar, não fazer experiências com produtos que eu desconhecia. Ela tentava todos os métodos. Era escusado. Só fazia aquilo que achava que devia fazer e era imune a toda e qualquer coacção.

Um dos meus prazeres era ir para dentro de um galinheiro que ficava junto da casa. Sentava-me no chão, tirava os coelhos das casotas, misturava-os com as galinhas e com os patos, e eu, no meio, enchia-os de comida: couves e milho. Os patos eram os mais engraçados e os que me faziam mais cócegas. Sem qualquer pudor metiam o bico por todo o lado sempre que lá sentissem um pouco de comida. Minha mãe avisou-me imensas vezes:

- Ainda te fecho na varanda. Ficas a ver as galinhas, os coelhos e os patos até te fartares. - Assim fez, mas por pouco tempo. As pessoas, preocupadas, batiam-lhe à porta; “o menino estava a atirar tudo para a rua”. Entre os objectos desfez-se um bonito Santo António do século XIX, que minha mãe venerava e lhe ajudava a encontrar tudo quanto perdia ou eu escondia só para brincar com ela, quatro cuecas com as rendas rasgadas, cinco pares de meias, um bibe, uma vassoura, uma pá, uma escova, um pente, um esfregão e um penico que quase acertou no jardineiro da vila, o sr. António Cruxinho.

Minha mãe não se cansava de repetir:

- Ele é impossível. Não era melhor ter saído menina?

 

Quando nasci minha mãe não teve dores de parto: levantou-se da cama, deu dois passos e aí vou eu, feito tolo, direito ao chão.

Ela justificava a minha rebeldia devido a esse facto. Era a minha costela independente a manifestar-se logo à chegada a um mundo já meu conhecido. Minha mãe tinha servido de suporte para a transferência entre o passado e o presente: é essa a função de algumas mulheres: o acolhimento dos viajantes do espaço, daqueles que, sempre insatisfeitos com os progressos do palpável, vão e voltam até ao fecho dos séculos. Talvez por ter esta opinião nunca senti minha mãe como mãe. Muitas vezes lho disse. Ela pensava que eu estava a brincar, no íntimo eu sentia o que estava a dizer e assim nunca fiz qualquer diferença entre o amor que lhe dedico e o amor que dedico a qualquer outro ser humano. Amo o meu semelhante e por isso me enfureço quando vejo que ele não é capaz de deixar de ser capacho, de se levantar e enfrentar a vida com o prazer de vencer todos os desafios e de amar. Amar só por amar sem outro interesse que a felicidade de todo o ser humano.

 

Eu gostava imenso de ir para a garagem, mexer nas peças dos carros, sentar-me ao volante de cada um e imaginar corridas de automóveis. Meu pai, quando lá me apanhava, agarrava em mim e ia levar-me a casa. Eu não tinha emenda.Aos dez anos já era capaz de conduzir razoavelmente. Este conhecimento foi motivo de muita apreensão para meus pais. A partir dos doze, treze anos, incitado pelo António Fonseca, pelo Fernando e Artur Portugal, pelo José Rossa saíamos todas as noites com o carro que estivesse disponível. Preocupávamo-nos mais com a polícia do que com o martírio dos pais. Às vezes aparecia um encartado mais velho e que nos fazia companhia, lembro-me do Dr. João Robalo Pombo, ainda estudante, ter alinhado nestes desvarios.

Quando meu pai tirava o rotor dos automóveis e tínhamos resolvido sair, nenhuma dificuldade nos fazia mudar de ideias; serviam as camionetas de carga ou as de passageiros. 

Meu pai nunca me dizia nada, queixava-se a minha mãe e esta moía-me a cabeça, mas não me batia. Aquela não era a sua jurisdição e tentava, por todos os meios, que meu pai, pelo menos, me ralhasse. Ele sofria, mas era incapaz de o fazer. Só uma vez, com ar triste, me chamou a atenção para uma tropelia.

Nas viagens que fazíamos, íamos, muitas vezes, para uma Quinta onde meu pai tinha muitas galinhas. Nesse dia, como nos apetecesse variar de ceia, o António Fonseca agarrou na espingarda e a tantas galinhas atirou que lá conseguiu matar uma. Dessa vez meu pai não resistiu ao desabafo.

- Não deviam andar aos tiros às galinhas. Duas não morreram, mas devem sofrer muito. Eu via-as coxear, fui ver porque era e deparei-me com elas cheias de bagos de chumbo. Passei toda a tarde a tirar-lhes o chumbo. Com certeza tenho de as mandar matar.

Disse-lhe que tinha sido eu e pedia-lhe desculpa. Mas não tinha emenda. À medida que os anos passavam eu comecei a saber de mecânica como um especialista. Eram os próprios mecânicos que me davam as lições.

Fiz milhares de quilómetros sem possuir licença de condução. Nunca tive um acidente. A partícula que nos protege, que trazemos connosco e nos guia, também gostava daquelas brincadeiras, que só não foram perigosas, porque ela estava comigo.

O interessante é que, com os meus amigos, a partícula me avisava para não o fazer e isso afastou-me sempre das suas conduções. Eu senti isso por dois avisos. O primeiro foi com o João Maria Milheiro. Os pais tinham comprado um belo Volkswagen verde, o João Maria sonhava com corridas de automóveis e esmerava-se na condução, eu evitava andar no seu automóvel, mas o António Fonseca era louco por andar de pó, pó, e tendo o João Maria parado junto a nós, o António Fonseca começou a elogiar o João Maria, e tanto o elogiou que este insistiu para eu dar uma volta até à Senhora do Incenso, tentei recusar, mas ele insistiu tanto que lá entrei contrariado. O João Maria deu a volta junto à igreja Matriz e aí vai de acelerar, vila fora, até que perto das tílias o automóvel ia a grande velocidade, meu pai viu-nos de relance e três segundos depois ouvia um estrondo enorme. Meu pai, louco de preocupação, correu desvairado até ao local; pensou que tínhamos batido no muro e tivéssemos caído de 7 ou 8 metros tal foi o estrondo. O João Maria conduzia muito bem, mas ainda era muito jovem e ao fazer a curva apanhou óleo e teve o azar de dar um pequeno toque no travão, perdeu de imediato o controle do automóvel e só a sua perícia nos fez bater na parede do lado do Asilo Bárbara Tavares Proença. A frente do carro subiu toda e, só por uma sorte fabulosa, não nos aconteceu mais do que um forte apertão. De todos os que acorreram ao local de acidente só meu pai estava sem fala.

Com o José Rossa a conduzir tive dois acidentes, um em Penamacor: o automóvel ficou a balouçar num valado e outro em Coimbra; foi raspando por nove ou dez carros até que eu consegui travar a máquina. A partir destas experiências deixei-me de aceitar convites de amigos meus e de conhecidos. A partícula não queria e, como eu sou supersticioso, ou dito de outra maneira, como tenho uma certa premunição do que vai acontecer, por mais que me convidassem não aceitava, mesmo que ficassem aborrecidos como algumas vezes sucedeu com o Fernando Portugal.

 

Eu não quero ser como os cães e os gatos. Eu quero ficar na história, quero um lugar permanente neste mundo revolucionário com mais de 600 milhões de anos.

Quantas vezes já nascemos, morremos e renascemos? E no entanto continuamos selvagens e incultos.

Selvagens porque nos continuamos a perseguir e a matar uns aos outros.

Incultos porque não nos entre ajudamos.

Em 500 milhões de anos devíamo-nos ter destruído totalmente, pelo menos, 5 vezes. É mais que tempo do homem se tornar humano.

Eu quero ficar neste mundo porque quero ser humano.

 

E tu, que me lês, que queres tu? Ou que pensas tu desta minha inquebrantável vontade?

 

No primeiro dia que fui para a escola primária foi uma loucura. Estava excitadíssimo. Ia aprender, com regras, ia sequioso por saber mais. Meu pai já me tinha ensinado a ler. A minha Cartilha foram os jornais: “O Século” e o “Diário de Notícias”. Eu gostava de saber muito mais. Ia ser independente. Recusei que minha mãe me fosse levar à escola. Conhecia bem o caminho pois era ali e no jardim que jogava à bola, às escondidas, aos cowboys e onde já tinha partido a cabeça quatro vezes.

Tal como todos os miúdos, os prazeres das brincadeiras e a delícia de uma bola eram irresistíveis. Ainda não tinham começado as aulas já estávamos agarrados ao esférico e em exacerbada partida de futebol. Atingiu o auge quando, na fúria do jogo, o José Rego meteu um violentíssimo golo numa vidraça do primeiro andar. Todos se encolheram. Daí a segundos apareceu o professor José Manuel Landeiro, de bola na mão, olhos arregalados, branco de emoção.

- Quem fez isto? - Apontou os destroços.

O Zé Rego estava entre mim e o Prof. Landeiro. O professor tremia com os nervos em chama. Voltando-se para mim, com olhos enormes, gritou:

- Quem foi?

Perante aquela voz tonitruante, lembrei-me do lobo mau e, instintivamente, assinalei o canhestro:

- Foi este. - O Zé Manel, como nós o tratávamos, pelas costas, o Prof. Landeiro, não esteve com meias medidas: ZÁS! O Zé Rego baixou-se e eu apanhei uma bofetada que valia 50 sovas de minha mãe. Por incrível que pareça, o professor, não se apercebeu que eu tinha sido a vítima da sua fúria, voltou as costas, e resmungou:

- Ficam sem a bola.

Quando todos viram o Zé Manel fora do alcance de uma boa risada, foi gargalhada geral sem que eu achasse piada; a face ficou vermelha durante mais de duas horas. Fiz logo jura mental que o meu prestígio nunca mais seria enxovalhado e que nunca mais acusaria alguém.

Para entender a zanga, do Professor José Manuel, é preciso compreender porque é que ele procedia assim. O Prof. era muito exigente, ensinava bem e era um intelectual. Tinha publicado: “O Concelho de Penamacor, na História, na Tradição e na Lenda”, vários escritos sobre arqueologia e história, fundou o jornal “De capa e batina” etc. etc. Só batia nos alunos em determinados dias. Sempre que a mulher, no dia anterior ou naquele mesmo, lhe tinha batido, o que acontecia algumas vezes. Eu e muitos dos meus colegas como o Ginja, o Gonçalves, o Armando e outros, assistimos a essas cenas.

- Anda cá Zé Manel. - Dizia a mulher, ele respondia-lhe:

- Oh Bitinha, tem calma.

- Anda cá. - E ali andava, o Zé Manel, à roda da mesa, até apanhar umas chineladas. Ele levava-nos lá para casa e nós assistíamos ao acto, pelas frinchas do soalho. Mas tudo muda nesta vida: alguns anos mais tarde, o Prof. Zé Manel e a mulher foram para o Montijo, e, fosse pela harmonia dos ares, ou fosse porque arranjou uns amigos que o embebedavam depois das aulas, o certo e sabido é que, todos os dias, até falecer, dava sovas monumentais na mulher.

Era bom professor, era inteligente, muito trabalhador, tinha gosto em ensinar e podia ser um homem feliz com a D. Benedita a quem dedicou o livro supra mencionado. “A minha mulher, Benedita de Jesus Nunes Gonçalves”, acrescentando na página seguinte: “Benedita: aceita este livro, escrito sob a luz do teu olhar e ao ritmo do teu coração”. Um homem que tem a coragem de oferecer um livro e declarar nele, publicamente, o seu amor, é justo que leve umas chineladas como se fosse um garoto? Há qualquer defeito no ser humano que o faz cometer actos impensados.

O Prof. José Manuel Landeiro é alguém que recordo, muitas vezes, para tentar compreender por que é que as pessoas hão-de insistir em implicar umas com as outras, em serem polémicas sem necessidade?

 

A bofetada do Zé Manel serviu-me de lição. A partir desse dia fui sempre um intransigente defensor dos meus colegas. Quase todos os anos fui chefe de turma.

 

O encontro entre um homem e uma mulher, ou a vida em comum de um casal principia a desfazer-se quando o fascínio começa a esmorecer. A ligação dos corpos é muito importante. O corpo é a materialização que os sonhos precisam para manter a chama viva da compreensão. Quando o homem ou a mulher se desinteressam pelos sensores que espevitam o amor; a ternura, a ligação do casal passa de contentamento a tortura. 

Tendo a certeza de que o sexo, no homem, é o seu ponto de equilíbrio. Tentei, em vários livros, apontar soluções para alguns percalços sem importância, e susceptíveis de reparação, que deixam, muitas vezes, o homem destroçado, irascível devido à sua incapacidade, que só é no seu pensamento, ou devido a uma exagerada sensibilidade mal controlada.

No livro “Saúde e Dinheiro, o Caminho para a Felicidade”, chamo a atenção sobre este assunto no capítulo: “A potência dos Impotentes”. No livro “Saúde e Destino” aparecem vários capítulos para estabilidade do corpo: “Homens e mulheres, problemas idênticos”, “A doença Misteriosa”, “Ejaculação precoce”, “Síndroma Orgástico”, “A Frigidez e os Desejos”. No livro “Doenças que as Plantas Curam” aparece um capítulo “As ervas da excitação” que, mais uma vez, trata do assunto de maneira correcta e sem escândalo.

Escrevi sobre este assunto, que considero fundamental para um perfeito relacionamento entre o homem e a mulher e ainda, como já aludi anteriormente, para um correcto equilíbrio do homem, porque não existe e ainda mal se divisa, em Portugal, uma disciplina de Educação Sexual que, naturalmente, explique os pequenos segredos do corpo e que, devido ao seu desconhecimento, causam traumas e frustrações de consequências desastrosas.

O gravíssimo erro da Igreja Católica, ao teimar no celibato dos padres, tem o seu reflexo na quantidade de sacerdotes apanhados nas práticas mais indecorosas ao aliciarem jovens para a prática de sexo anal ou oral. Nos séculos passados foi possível esconder estes desvios, hoje os meios de comunicação farejam qualquer escândalo e denunciam-no. Nos Estados Unidos, só de uma vez denunciaram 117 padres. A pedofilia patristica deu um forte abanão à milenar instituição clerical. Até ao século XIV os padres podiam casar e, muitas vezes, exigiam às confessadas pagamentos sexuais para lhes perdoarem os pecados. No século XIV, o Papa Gregório VII proibiu que os clérigos se casassem, mas no século XVI, o Papa Júlio II, conhecedor da impossibilidade do homem conter os impulsos sexuais, a menos que se torne um atormentado permanente ou um monstro pedófilo e castrador de novas vidas, esse Papa, que empreendeu a construção da basílica de S.Pedro e protegeu os fabulosos artistas do renascimento: Bramante, Rafael e Miguel Ângelo, criou um bordel de igreja onde as jovens estavam à disposição do clero e, nas horas vagas, prestavam serviços religiosos. O nosso Frei Bartolomeu dos Mártires que era, esse sim, um verdadeiro santo, devido à maneira como respeitava e defendia todas as pessoas, incluindo o seu clero, pediu ao Papa autorização para que os padres do Barroso casassem, evitando assim a mancebia e as pernadas nas mulheres casadas, cujos maridos andavam a descobrir e a povoar mundos, o Papa recusou, e este santo, que tinha todo o direito a galões de santidade, ficou só conhecido por Frei Bartolomeu dos Mártires, Bispo do Barroso.Em vez de lhe tirarem virtudes acrescentaram-lhas se o quisermos comparar aos santos Papas...   

O amor vive de um encontro natural e às vezes casual. Nunca pode ser imposição ou irreflexão. Lembro-me de um acontecimento que serve para ilustrar o que acabo de dizer: tem como personagem um jovem de raça cigana. Vinha de Salamanca e ia para Penamacor, mas resolvi passar pela Guarda, cidade que vive no meu coração. Depois de passar a fronteira, em Vilar Formoso, tinha observado um acampamento de ciganos. Uns dez ou quinze quilómetros depois estava um rapaz cigano a pedir boleia, era Dezembro, estava muito frio, eu ia num Mercedes que tinha comprado há pouco tempo. Parei e vi que o seu aspecto era deprimente. Pensei: “o carro vai ficar numa lástima”. Não consegui negar-lhe transporte porque gosto deles, acho-os o povo mais livre do mundo, escrevi sobre eles e, anos mais tarde, fiz uma intervenção na Assembleia da República defendendo-os. Mas, naquele momento, não resisti ao comentário:

- Podias, pelo menos, lavar as mãos e a cara. - O cabelo tinha bocados de resina.

Ele não respondeu.

- Vou para a Guarda e tu?

- Eu também. - Respondeu ele enquanto se recostava.

- Que idade tens?

- Dezassete.

- Que fazes?

- Fazia.

- Fazias o quê?

- Vendia cavalos e burros.

- Trabalhavas para quem?

- Para o meu ex-sogro.

- Já és casado?

- Era.

- Eras e já não és?

- Não.

- Que idade tem a tua mulher?

- Ex-mulher. Doze.

- Doze anos! E casaste?

- Casei.

- Casaste como? – repeti admirado.

- O meu sogro, uma noite, à roda da fogueira e já com uns copos disse-me: “amanhã casas com a minha filha”, no outro dia montou-nos uma tenda e fui viver com ela.

- E tu gostavas da tua ex-mulher?

- Hum...- Fungou encolhendo os ombros.

- Mas deste-te bem?

- Ela é um bocado preguiçosa.

- Foi por isso que a deixaste?

- Foi. Ontem mandei-a levantar para ir fazer o café. Não foi. Hoje fez o mesmo, e eu mandei-lhe duas lambadas no focinho.

- Não lhe devias ter batido. As mulheres não são pele de bombo.

- Pois não. Ela levantou-se imediatamente e foi, a correr, dizer ao pai. Eu mal a vi tomar aquele caminho, e conhecendo o mau feitio do homem, não esperei pela resposta. Ele apareceu de imediato de espingarda na mão. Se ele não estivesse de calças desapertadas não sei o que teria acontecido, assim, tomei-lhe avanço e quando ele começou aos tiros, eu fui-me cobrindo com os pinheiros, agarrando-me a uns e a outros e lá me safei.

- E agora?

- Vou à vida.

- Começas tudo de novo?

- Que remédio. O senhor vai-me deixar perto de um laranjal logo à entrada da Guarda. Tenho de apanhar qualquer coisa para vender.

- Não esqueças de te lavar.

- Não esqueço.

Estive para lhe dar algum dinheiro, mas pensei para mim: “ele não pode começar como um pedinte e eu não lhe posso turvar a imaginação. Já mostrou que tem pé leve. Deixa-o ir às laranjas. Se levar mais uns tiros do dono do laranjal, ainda fica mais espevitado para enfrentar a vida.”

 

Tu que me lês, que tinhas feito?

Ensinar alguém requer tempo e os ciganos são um povo muito especial. Decidi pelo que achei melhor. Espero que tenha sobrevivido e hoje seja um bom negociante.

 

Esforcei-me sempre por compreender o porquê das desigualdades entre as pessoas, por que é que havia tanto jovem descalço e de calças rotas na minha terra, por que é que muitos estendiam a mão à caridade e tinham de recorrer à distribuição do rancho feito na Companhia Disciplinar de Penamacor? Se isto era assim em Portugal, como seria por esse mundo fora?

Quando saí de Portugal e passei férias em Espanha, em 1947, tinha doze anos, vi horrorizado que a miséria e as carências eram 10 ou 11 vezes maiores que em Portugal e eram muitíssimo mais evidentes; casas a cair de podres, ruas quase intransitáveis, comboios que mal conseguiam andar, automóveis e autocarros seguros por arames, pedintes e engraxadores por todo o lado. Não consegui aguentar mais do que um mês apesar de eu ter todo o conforto e poder comprar o que me apetecesse.

Eu queria ter a coragem suficiente para distribuir tudo e juntar-me a eles para resolver aquela situação.

  

Tendo sempre no pensamento que a partir de uma ideia é possível resolver todas as dificuldades, quando os meus filhos tinham 8, 9, 10 anos resolvi testá-los a partir de ideias simples. Cada um montava o seu próprio negócio a partir do zero ou de um pequeníssimo capital. 

 

A minha filha mais velha, a Margarida, começou por juntar roupas velhas e destinadas ao lixo; lavou-as, restaurou-as, com a ajuda da mãe e começou a vendê-las a preços insignificantes. Como tudo era lucro, reservou 50% para o seu tempo, trabalho, lavagem, reparação e para comprar roupas, a preços simbólicos, a quem não lhas oferecesse. Os outros 50% eram dados a pessoas carenciadas sempre com uma sugestão tomada em colectivo, o que eu aprendi com meus filhos.

 

Sempre fui muito individualista, talvez por ter sido filho único e me ter habituado a resolver os meus problemas sozinho, mas eu nasci em Portugal e os portugueses sofrem desta pecha: são individualistas. O associativismo ainda hoje vive com dificuldades. O país dividido em municípios seria, de novo, o seu sonho e provavelmente o seu desaparecimento. Hoje, o mundo é uma cidade global que rejeita seres minúsculos e sem ordem. Os portugueses, com o sentido de obediência e ordem que têm... seria o caos.

Ser individualista é bastante desvantajoso. O mundo avança devido à cooperação e ao conhecimento entre todos os seus elementos. O individualista tem de contar só consigo próprio.

 

A do meio, a Andreia, fazia poemas que vendia às amigas e à família. Destinava 75% aos amigos mais carenciados e os outros 25% para o seu trabalho e gastos de papel e lápis. O mais novo, o Fernando, montou um banco com os capitais da mãe que, embora não estivesse pelos ajustes, só para não o ouvir, lhe ia entregando alguns trocos sobre os quais ele lhe passava quitação. Julgo que nunca recebeu qualquer compensação. Como não movimentava o capital tinha de pagar para o ter guardado, mas fazia empréstimos às irmãs a quem cobrava os respectivos juros. Com este, os lucros revertiam sempre a favor do capitalista. Nunca me dei conta que fosse magnânimo nas suas ofertas, vi, no entanto, que o seu quarto se encheu de aparelhos úteis para as suas brincadeiras e para os seus conhecimentos futuros sobre informática e sobre maquinaria que gosta de entender, construir, inventar e dominar.

As nossas reuniões eram movimentadas e cheias de ideias. Com os filhos eu testava o que poderia ser feito, primeiro, a bem de Portugal, depois reflectido a bem de todos os seres. Tínhamos mesmo programado fazer uma lista dos homens mais ricos do mundo, escrever-lhes, convence-los a investir em Portugal com a sugestão de aumentarem os postos de trabalho, e destinar, todos os anos, 10% em bens sociais que reverteriam para o Estado Português o qual se comprometeria a nunca alienar esses bens enquanto houvesse famílias com dificuldades.

 

Partir do nada para reconstruir o mundo. Partir do nada para desenvolver o amor e a prosperidade. Esta é a ideia fascinante que, embora controversa, deve animar todo o ser humano, o qual chega a este mundo, munido de todas as condições e meios para superar todas as adversidades.

 

Para ensinar, além do saber é fundamental gostar. O ensino nunca pode ser um sacrifício. Aquele que ensina com sacrifício vai crucificar centenas ou milhares de jovens. É pior do que o pior dos criminosos. Assassina a vontade e o interesse dos jovens.

 

O meu pai trabalhava bastante; fazia o que gostava e o rendimento estava assegurado, vivia feliz e pensava que a felicidade se mantém toda a vida. Como era feliz, queria que eu ainda fosse mais feliz e julgava que eu nunca devia fazer sacrifícios ou passar por dificuldades. Depois de ter feito uma quarta classe com distinção, em vez de fazer a admissão ao Liceu, naquele mesmo ano, enviou-me para o colégio de S. José, em Mangualde. Foi um erro grave. 

Nunca mais abri um livro. Nunca mais me lembro de ter voltado a estudar, para agravar a situação, a partir de certa altura, a professora, passou também a dar aulas à noite para no final e quando os outros iam para os quartos eu lá ficar mais um pouco e ela me encher de beijos. Ficava meio desnorteado. Se coincidia sair, e as luzes apagavam, depois daqueles apertões nos lábios, eu só sentia flashes de luz, como se fossem estrelinhas, a explodir: paf, paf, paf, paf!  A descarada, muitas vezes, de dia e na aula, colocava-me numa das carteiras de trás, abria-me a braguilha, metia os dedos sorrateiramente e divertia-se com o rapazito a crescer.

Foi o meu baptismo no labirinto das surpresas agradáveis.

No ano seguinte, no Liceu Nacional de Castelo Branco, contínuo a sentir o despertar para o mundo das sensações.

Trazia uma “boa escola” do Colégio de S. José. Tornara-me especialista em jogar hóquei com os tronchos das enormes couves da horta, e em futebol. Numa das partidas do dito, dei, sem querer, uma canelada no Zé Penha. Este ficou muito zangado; ele usava calções e eu também.

- Hás-de pagar-mas, hás-de pagar-mas. - Dizia o Penha. E eu que nunca me aborrecia, mesmo quando me partiam a cabeça ou tinha os joelhos a sangrar, respondia-lhe:

- Desculpa, foi sem querer. - O Penha não ouvia razões. Quando subíamos para a aula do cónego João, ele aborreceu-me tanto que eu voltei-me e dessa vez é que lhe dei uma biqueirada, logo por azar, por cima das botas de cano alto que ele usava. Ele tinha uns onze anos e eu, mais um mes. Desatou a chorar e assim entrou na aula. O cónego perguntou-lhe.

- Por que choras, menino?

Todos os outros:

- Foi o Cunha Simões que lhe bateu.

A aula do cónego era uma festa para uns e uma chatice para outros: nem moral, nem cívica; era barulho, insubordinação, ameaça de irmos ao reitor, o que nunca acontecia.

- Vais ao reitor no fim da aula! - Disse-me o bronco. Eu já sabia que não ia. Enganei-me. Desta vez, o sonso, manteve a palavra, mas também, pela primeira vez, tive a percepção exacta da pouca consideração que o reitor tinha por outro ser humano e que era seu igual, sendo professor. Tratou-o com rudeza, como se ele não passasse de um mero lacaio que não ensinava o pouco que sabia, e de que nada adiantava para a formação dos jovens.

- O que é? - Perguntou-lhe seco, o Dr. Sérvulo Correia, terror da garotada e dos mais velhos e também dos outros professores.

- Este menino, apontou para o Penha, chorava que nem uma Madalena arrependida e diz que este lhe bateu. - O reitor cortou-lhe, cerce, a retórica.

- Pode-se ir embora.

- Mas... - tentou o cónego.

- Vá-se embora!

O reitor, que tinha sido tão rude com o cónego, dirigiu-se ao Penha com ar simpático.

- Conta lá. - O Zé Penha disse o que lhe apeteceu. Quando eu quis interromper aquela mistura de verdades e mentiras, o reitor mandou-me calar.

Depois de ouvir o queixinhas voltou-se para mim:

- Deste-lhe o pontapé?

- Dei...mas...

- Não te perguntei mais nada. Vais ser castigado. Os olhos do meu saudoso amigo Penha brilharam de contentamento. - Olhei para o quadro preto onde iam aterrar todos os prevaricadores depois das bofetadas. Pensei: “vai-me derreter.” Ele calou-se por uns segundos e disparou:

- Queres um dia de suspensão, oito dias à porta da reitoria durante os intervalos, ou um par de bofetadas?

- Oito dias à porta da Reitoria, respondi sem hesitar. Ele sorriu.

- Vai-te embora. Começas amanhã.

A Reitoria ficava ao lado do vestiário das alunas mais velhas. Logo no primeiro dia começaram a parar e a fazer perguntas. “Como te chamas? Quantos anos tens?” Faziam-me festas, batiam-me nas pernas, eu usava calções, beliscavam-me suavemente.

- És um malandreco.

As mais carinhosas afagavam-me os cabelos, davam-me beijos fugidios e confortavam-me enquanto elas suspiravam os seus afectos a despontar e a desejar um miúdo tenrinho, com penugem nas pernas; já se sentiam mamãs, noivas ou irmãs mais velhas.

Eu adorava ir para ali. Era o máximo: podia sonhar, podia estar perto da janela, podia construir histórias, sentia o calor feminino. Ao fim do 18º dia quando o reitor voltou a reparar em mim, perguntou-me:

- Que estás aqui a fazer?

- Estou de castigo.

- Eu não te disse que eram só oito dias?

- O senhor reitor não me veio levantar a pena...

- Desaparece antes que eu agrave a sentença. - Reparei que aquela “fera” ria feliz, enquanto eu dava corda às pernas.

 

As carícias da professora do colégio, as carícias das alunas do 6º e 7º anos, hoje 11º e 12ºanos, espevitaram-me os apetites: um dia apertei as bochechas traseiras da criada. Ela não achou graça, virou-se e deu-me uma bofetada, com tanta força, que fui parar ao caixote do lixo.

A rapariga era muito bem constituída e muito sisuda: desta vez riu à gargalhada e ainda me disse, com ar maroto:

- Aí é que está bem. É para aprender a não mexer onde não deve. - E ria, ria feita tonta.  

Nesse tempo estava em casa da D. Aninhas, mãe da doutora Luísa Grilo e do Coronel José Grilo a quem, a descarada da criada, contou o sucedido, mas que a Luísinha proibiu de contar à mãe. 

 

Um país só se desenvolve através do conhecimento e esse adquire-se nas escolas com bons professores. Indivíduos como o cónego não servem para nada, são menos que pó. Além de não ensinarem, incentivam, sem querer, o desrespeito nas aulas.

Portugal foi sempre um país com um défice muito grande de gente de ensino, talvez por isso Akio Morita afirmasse ao Manuel Guimarães que nós éramos um povo inteligentíssimo.

Penso que somos um povo de grande intuição e inteligentes como os outros povos. A nossa intuição e a nossa sensibilidade é que são muito grandes e conseguimos atingir objectivos que só os mais instruídos conseguem. A nossa intuição foi sempre a nossa cartilha. Mas isto não pode continuar. Temos de estudar e querer ser iguais ou melhor que os outros para a felicidade de todos.

Desde o início da nacionalidade vivemos com a ignorância. Só a intuição nos fez independentes e capazes de desenhar este país. Os que sabiam ler e escrever estavam ligados à igreja ou eram judeus. Os reis estiveram sempre nas mãos destes dois grupos. O Papa atingiu o seu enorme poder devido mais ao grau de instrução dos bispos e padres que serviam a religião do que à sua força temporal.

A igreja, durante séculos, colocou em todas as aldeias gente com formação: os padres. Daqui lhe veio a força.

Os povos submetiam-se aos mais conhecedores, aqueles que melhor raciocinavam e melhor explicavam como se resolviam os problemas ou como atingir tal ou tal finalidade.

Em Portugal o ensino foi sempre muito reduzido. De qualidade, muitas vezes foi, e disso temos exemplo nos homens brilhantes que saíram das nossas universidades e foram ensinar em universidades estrangeiras ou deslumbraram o mundo com o seu saber.

Brutinhos não somos. Desinteressados e, às vezes, pouco aplicados, sim. Hoje, temos quase todas as condições para sermos os melhores entre os melhores e aplicar a sabedoria e o coração para a resolução de todos os problemas humanos seja em Portugal, seja em qualquer parte do mundo.

 

Vender ou dar inteligência será o nosso lema. E insistirei sempre nesta ideia até fixares que tens de ser o melhor.

 

A vida do Liceu decorria em roda livre. Reprovasse ou passasse, para os meus pais era indiferente.

Estávamos no quarto ano, hoje oitavo, último período, turma desgraçada, haveria entre 80 a 90 por cento de reprovações. Eu era uma das vítimas, mas não estava preocupado. Se os meus colegas de instrução primária não podiam continuar a estudar, eu achava que não tinha mais direitos que eles. Eu aprendia nos outros livros. Os meus pais não me ralhavam por isso. Não estavam inquietos nem com as minhas dúvidas, nem com as minhas sensibilidades porque não as conheciam, nem as compreendiam. Tinha sempre excelentes férias.

Aqui tens mais uma contradição do ser humano; devido à sua ignorância sobre a agressividade da vida, minha mãe, que era tão severa para com as minhas traquinices, aceitava com bonomia os resultados dos estudos. Ainda hoje a oiço dizer para as amigas.

- É novo, tem tempo.

Nesse ano acontecem-me várias situações que só a curiosidade, a ansiedade de compreender e ao mesmo tempo viver, aparentemente, o descuido da vida podem explicar.

O mais indisciplinado da turma era o Zé Fevereiro que resolveu, em três ou quatro disciplinas, insubordinar as aulas. De boca fechada emitia um arremedo de som gregoriano: “um, um, um, um, um, um,” com variações, sempre que o professor falava. Os professores começaram a ficar inquietos e a perguntar quem era. O Fevereiro, nesses momentos, parava, mas continuava logo a seguir. Perante a ameaça dos professores que reprovaríamos todos, os meus colegas intimaram-me a fazer calar o cantor. Ao princípio fui-me esquivando, mas perante o argumento de que eu era o chefe de turma e tinha de os defender: falando com o Zé Fevereiro ou denunciando-o ao reitor, o que, para mim, estava fora de causa. Tentei dialogar com aquele cabeça de turco.

- Agradeço-te que deixes de brincar nas aulas. Os colegas estão preocupados com as consequências e estamos a chegar o fim do ano.

O Zé, muito mais alto e mais entroncado do que eu. Era um garoto com corpo de homem, passou-me a mão pelos ombros:

- Ó amigo Cunha Simões, eles são uns tontos, isto está tudo chumbado. Eu, por mim, chumbo a cabeça aos professores.

Insisti para que ele não continuasse, tivesse as razões que tivesse. Em causa estavam os colegas. O Zé riu-se, deu-me uma palmada nas costas e repetiu: “são uns tontos”. Ele sabia que era muito mais forte que eu e do que todos os outros colegas. O seu poder de ataque era arrasador e via-se quando jogava brutebol, um jogo bastante “meigo” inventado pelo Dr. Carriço e onde eu parti uma perna ao meu amigo José Galvão por causa de uma bola mandada, com muitíssima força, ou por ele ou pelo José Neves, que era também um fortalhaço, mas incapaz de se aborrecer fosse com quem fosse, assim como o Zé Fevereiro. Eu digo, por um ou por outro, pois mal choquei com o Galvão, e ele caiu a contorcer-se com dores, o jogo parou; vi o Carriço vir direito a mim com cara de poucos amigos e tratei de fugir para os balneários. Aquelas mãos já eu tinha experimentado e por uma razão tão idiota como inexplicável.

Aqui faço um parêntese para dizer que embora não tivesse qualquer culpa por ter partido a perna ao Galvão deixei que ele me roubasse uma namorada para se sentir mais amparado. Fiz de conta, e segui em frente.

 

Enquanto adio a refrega e contínuo com o parêntese, vê como, injustamente, apanho duas galhetas, como o Dr. Carriço gostava de chamar aos seus bofetões. Ele era um homem enorme e até simpático quando não se aborrecia.

Fazíamos ginástica, educação física, fora do ginásio, ao ar livre. O tempo estava sublime. Eu dava os primeiros passos nas visões esotéricas. O Dr. Carriço mandou-nos sentar e fazer um exercício de braços: para a frente, para a esquerda, para a direita e assim sucessivamente. Aconteceu que, num dos movimentos para a esquerda, fiquei aí parado, em êxtase profundo, uns bons nove ou dez minutos. Enquanto a turma ria a bom rir, o Carriço olhava para mim para tentar perceber a origem daquela paragem e até que ponto ia a minha ousadia. Eu continuei. Tinha saído do mundo, entrei no sonho, no prazer infinito da viagem sem fim de onde vimos e para onde regressamos. Andava a branquear a alma noutros céus. O Dr. Carriço, que não era dado a fantasias, nem a teses místicas, fartou-se de esperar. Pôs-se à minha frente, baixou-se e gritou:

- Oh! – Eu olhei para ele surpreendido. Zás, zás! Duas bofetadas devolveram-me à terra, mais rápido do que dela tinha saído. Levantei-me de um salto e escapuli-me a sete pés.

Bem me chamou o Carriço. Eu agarrei o fato pendurado no vestiário e fui vestir-me para outro lado onde o “selvagem” não me encontrasse. No intervalo seguinte, continuava eu a tentar decifrar os enigmas que me perturbavam e à procura do Deus, que permitia as desigualdades sociais, quando sinto a mãozorra do Carriço agarrar-me um braço, apertar com força e dizer-me:

- O menino quer brincar comigo, quer? Quer ir ao Reitor, quer? - Estremeci. Já tinha ido uma vez ao reitor, saíra-me bem, mas se voltava lá segunda vez, nem a alma se me aproveitava. O Carriço continuou:

- Queres ir ao reitor, queres? A gozar comigo. Um miúdo. Se tornas a fazer o mesmo não te escapas. És solipsista, és? Julgas-te um Narciso intocável, julgas? Todos rendidos ao menino, é? Desta vez foram só as galhetas, para a próxima não te ficas a rir.

Quando me largou, pensei cá para mim “ Solipsista?” “Narciso?”, o que é que ele quererá dizer? “ Quem será o Narciso? E o Solipsista? Nem conheço. Que se lixem o Narciso e o Solipsista”.

Só uns anos mais tarde soube que solipsismo significa, em filosofia, apenas eu, aquele que é único; e Narciso era um ser mítico, muito belo, e que apaixonado por si próprio se tinha precipitado nas águas de uma nascente onde vira a sua própria imagem. Ainda bem que eu não conhecia o significado das palavras. Não arranjei traumas, embora eu não fosse muito atreito a traumas, nem a tretas, mas às vezes, podia ser afectado. Os professores devem ter muito cuidado quando falam para os alunos e pretendem ser agressivos. Há palavras e actos que não se esquecem. 

 

Estou certo ou estou errado? O livro é a minha conversa contigo. Apoia, desapoia ou corrige. Fico-te agradecido pelos teus comentários mesmo que não os faças directamente. Envia-os por telepatia, se acreditas nesta forma de comunicação. Quando eu morrer também estou à tua disposição. Eu converso, com relativa facilidade, com o meu amigo Manuel Guimarães. Ele está do lado de lá, eu estou do lado de cá, mas isso não impede que não nos entendamos, e olha que não estou maluco. Este tema fica para outro livro, se o Manuel concordar.

 

O Zé Fevereiro continuou a fazer barulho. Avisei-o mais uma vez e disse-lhe que ao terceiro aviso iríamos para o Barrocal resolver a questão. O Barrocal ficava a 600 ou 700 metros do Liceu de Castelo Branco e a seguir à estação dos Caminhos de Ferro. O Zé não fez caso.

Na aula do mano João, o Fevereiro tornou-se insuportável. O professor bem insistiu comigo para o ajudar a descobrir o prolixo e inflamado cantor. O Fevereiro piscava-me sorrateiramente o olho e eu pensava cá para os meus botões. “Já vais ver como elas mordem”. À saída disse-lhe:

- Vamos para o Barrocal.

O Zé tentou gozar, dava-me pancadinhas nas costas. Todos os colegas estavam a olhar para nós. Ele dizia:

- Temos matemática com o Dr. Sena Esteves. Com esse, estou calado. - E era verdade, mas eu não lhe dei hipóteses.

- Ou é lá ou é já aqui e somos os dois expulsos. Escolhe.

Aí vamos. A turma inteira do meu lado, mas sem o poder exprimir e o Zé Fevereiro também calado porque, só naquele momento, se deu conta que tinha levado a brincadeira longe demais.

Instalaram-se quase trinta alunos no alto de dois barrocos. Eu despi a capa e a batina, tirei a gravata, o Zé despiu o casaco. Ficámos em camisa, de mangas arregaçadas; a minha era branca, a dele de riscas vermelhas. Como tinha sido eu a desafiá-lo convidei-o a ser ele o primeiro a iniciar o combate. O Fevereiro, que era um bom lutador, teimou em ser eu a abrir as hostilidades. Como já íamos, nestas delicadezas, em alguns minutos, fingi que lhe ia dar um soco no estômago. Ele, mal viu o gesto, ripostou com um potentíssimo murro em pleno nariz. Caí de imediato, mas de imediato me levantei porque ele não me seguiu. Lancei-me de um salto sobre ele, cego de dor e esguichando sangue. O Zé, com o meu impulso caiu. Ficámos os dois, no chão, agarrados, eu ao pescoço dele e a dar-lhe murros com a mão livre, e ele com um braço a envolver-me as costas e com o outro a dar-me também murros. Eu, de olhos fechados, repetia-lhe continuamente.

- Tornas a guinchar na aula, tornas? - E pás, zás, pás, zás e o Zé Fevereiro, de resposta, a mesma música.

Estávamos nesta tontaria, há bem mais de 20 minutos, quando aparece um homem, de forquilha na mão, a insultar todos os que ali estavam:

- Malandros! Grandes malandros! Andam os vossos pais a mourejar de sol a sol para vos sustentar! Vadios! Não tendes aulas, pois não? Desgraçado País este que põe a estudar quem devia andar agarrado à rabiça do arado! Isto, também não é um país a sério! Olhai bem estes idiotas, encharcados em sangue! - Chegou-se ao pé de nós e separou-nos sem esforço.

- Desgraçados! Não tendes pingo de vergonha! Mal empregado dinheiro que os pais e o Estado gastam convosco! - Ele continuou a arengar enquanto nos vestíamos. Só quando se foi embora é que os assistentes, descontentes com o resultado da contenda, desceram dos poleiros.

Estendi a mão ao Fevereiro.

- Amigos como dantes. Isto continua se tu quiseres.

A aula seguinte era de história, a professora, a D. Maria Antónia; um sonho minhoto que nos punha a cabeça à roda.

O Vaz Antunes tinha 16 a Ciências porque tinha medo da D. Julieta, eu chegava a ter 20 a história porque adorava a professora. E só para ela me perguntar sempre a mim, e eu para lhe mostrar que era o melhor, levava a palma em história e negativas em quase todas as outras.

A D. Antónia, quando viu que tínhamos faltado à aula anterior, bem quis saber o que tinha acontecido, mas ninguém se descoseu embora me tentasse subornar com olhos tentadores, de quem sabe a paixão que provoca, mas não pode dar confiança a miúdos que ainda estão a cheirar a cueiros.

 

Aquela turma estava destinada à reprovação.

Um dos meus grandes amigos era o Joaquim Vaz Antunes. Sempre nos tratámos por compadres, acho que para melhor gozarmos as maroteiras. Ele também estava nessa turma, mas havia uma particularidade; vivíamos na casa das senhoras Trigueiros onde estavam mais oito ou nove “melros” de igual calibre. Como eu era chefe de turma, o Joaquim pedia-me, duas vezes por semana, para eu não dar a sua falta na aula do mano João, que era às 8 horas e 30. Assim fazia. Muito perto do fim do primeiro período o Joaquim foi às aulas, o mano João, que era uma jóia, mas andava sempre munido de vara, olhou para o Joaquim e disse-lhe:

- Ah, menino, tu não és daqui.

- Sou sim, senhor doutor. - Respondeu o Joaquim.

Ao prevermos o que ia acontecer, todos, à uma, confirmámos:

- Não é, senhor doutor, não é. - E todos a gozar com a cara patusca do Joaquim a levar varadas do mano João, enquanto o professor repetia “vai-te embora” “vai-te embora” e o Joaquim, de braço no ar, a jurar que era aluno, que visse na caderneta. O Mano João, depois de muitas varadas, viu.

- Tu és o Joaquim Vaz Antunes?

- Sou sim. - Respondia o Joaquim de asa levantada para evitar as varadas.

- Mostra o bilhete de Identidade? - O Joaquim não tinha, mas possuía o cartão da Mocidade Portuguesa, a única coisa que ele tinha da célebre Organização; o dinheiro da farda tínhamo-lo gasto numas riquíssimas farras. Tenho de te dizer que eu era o comandante e por isso ele também nunca lá ia, assim como outros que lá não queriam ir. A Mocidade Portuguesa funcionava como organização para ocupar os tempos livres dos jovens: havia secções de volei, aeromodelismo, futebol, ténis de mesa, campismo e muitos acampamentos, durante as férias. Voltarei a falar da Mocidade mais adiante.

Depois de examinar bem o cartão, diz-lhe:

- Ah, menino... eu nunca te vi e tu não tens cá nenhuma nota, mas...também cá não tenho nenhuma falta. O professor olhou para mim. Eu afivelei a minha melhor cara e o assunto ficou por ali, com 8 no fim do período. O Joaquim, nesse primeiro período, teve 8 negativas e uma positiva de 16 com a D. Julieta.

Como disse, este quarto ano foi um ano atribulado, melhor dizendo: cheio de emoções.

Eu comecei a desconfiar de que o meu compadre - tratávamo-nos por compadres,já não sei porquê - Joaquim faltava às aulas porque andava metido com uma das criadas. Na casa havia duas. Um dia, uma aula antes da cena com o professor, quando ele me pediu:

- Ó compadre tire-me lá a falta.

- Está bem. Os quartos eram no primeiro andar, eu descia sempre as escadas a correr. Assim fiz, puxei, como de costume o cordel que abria a porta, fingi que tinha saído, empurrei a porta com força e, pé ante pé, meti-me no vão da escada onde havia uma porta. Passados dois ou três minutos aí vem o Joaquim e depois a criada. Deixei-os aninhar. Passados uns minutos e quando pensei que a festa devia já ter começado, outra vez e desta sem sapatos, fui pé ante pé até ao quarto interior onde eles se encontravam e quando me encontrei diante da alcova do pecado, bati à porta e gritei: “eu também quero”! O Joaquim começou logo a gritar:

- Ó compadre, não entre. Ó compadre não entre! – Eu continuava na minha ladainha “eu também quero”. – O Joaquim respondia:

- Está bem, está bem.

Mas eu queria que a criada confirmasse de sua vontade. Quando confirmou, eu deixei-os em paz e nesse dia tanto eu como o Joaquim tivemos falta na aula do Dr. João, pois eu só cheguei quase no final e o professor não foi na conversa que eu inventei.

Depois do Joaquim ter começado a assistir às aulas, a criada lá condescendeu em me fazer a vontade. Começámos a festa de pé e eu louco, cego e surdo, quando no mais feliz dos momentos que estremece um rapaz de barba a despontar sou empurrado abruptamente pela possante rapariga que me gritou ao ouvido:

- Esconda-se que vem aí a senhora.

Nervoso, sem saber o que fazer, escondi-me na casa de banho sempre com o apêndice bem rijo e excitado. Não acabei a festa e inexplicavelmente fiquei sem fala. O corpo doía-me todo.

No Liceu o Joaquim esperava por mim.

- Então?

Apontei-lhe para a garganta e tentei dizer-lhe através do movimento dos lábios que não podia falar. Quando soube de toda a história e eu lhe pedi que não contasse a ninguém, foi o mesmo que fazer um anúncio publicitário. Só os professores não souberam a verdade. Sempre que me chamavam e eu por gestos declarava que não podia falar, todos os meus colegas repetiam:

- É ele a gozar sr. Doutor. – Os idiotas riam que nem alarves.

 

A D. Julieta tinha a alcunha de tia Anica. Não podia comigo por me encontrar sempre com raparigas. Toda a vez que me chamava, eu sentia nela o prazer libidinoso de gostar de me esticar ao máximo mesmo que eu lhe fosse respondendo uma por outra pois o Joaquim tinha a mania de estudar alto e eu às vezes ouvia-o e também ouvia a professora, mas ela arranjava sempre maneira de encontrar perguntas para que eu não tinha respostas. No fim dizia sempre a mesma coisa:

- Sr. Simões, Sr. Simões não se podem amar a dois senhores ao mesmo tempo; 8 no fim do período.

No fim do ano estávamos chumbados, embora tivéssemos sempre 1% de esperança que passaríamos.

O Joaquim diz-me:

- Ó compadre, estamos chumbados. Eu estou perdido, o meu pai dá-me uma sova que me mata. Eu vou fugir para Lisboa. O compadre venha comigo.

Quando ele me disse aquilo eu pensei: “o que é que vou fazer para Lisboa? Os meus pais nem me ralham.” mas ele era meu amigo. Por solidariedade resolvi acompanhá-lo. Disse-lhe: “temos de esperar pelas notas”.

- Não vale a pena. Ninguém nos salva.

Mas eu insisti.

- Temos  de esperar pelas notas.

- Está bem. - respondeu ele - mas vamos para a saída de Castelo Branco e avisamos para nos irem levar os resultados.

E lá fomos, com duas pastas cheias de doces e fruta que tínhamos surripiado da despensa da casa, o que era um dos nossos feitos, apesar de nunca nos faltar nada. Mas achávamos piada violar os sítios onde era proibido mexer.

Era quase sempre eu que ficava com as culpas. A D. Maria José, uma das senhoras Trigueiros, detestava-me por pensar que eu era o mais traquinas como ela dizia. E não se convencia do contrário. Eu gostava imenso dela porque tocava muitíssimo bem piano. Isso dava-me calma, fazia-me sonhar, tornava-me bom, um coração imaculado, mas se ela me sentia, deixava de tocar imediatamente.

Vamos lá saber porque as pessoas reagem desta maneira?

Fomos para Montalvão, saída da cidade. Passaram, as 16 horas, as 17, as 18, as 19 e o Joaquim começa a insistir.

- Compadre, vamos embora. Estamos chumbados. As notas deviam sair às 5 no máximo, eles não vêm. Chumbou tudo.

Eram 20 horas e 15 minutos ouvimos uma gritaria enorme. Aí vinham eles: suados, aos pulos, doidos de contentes. “Passámos, passámos!”

- Também eu? -  perguntou o Joaquim ainda descrente.

- Todos, menos o Zé Fevereiro, que tinha faltado nos últimos dias e aos últimos exercícios.

Ali mesmo dividimos o farnel da viagem e fizemos a festa.

- Mas que aconteceu?

Os crentes exclamarão milagre, os outros dirão sorte, e outros dirão ainda; ou há justiça para todos ou não há para ninguém.

Aconteceu que entre os 90% dos reprovados se encontrava o Pardal. O Reitor do liceu era muito amigo do pai. Naquele tempo, os reitores, só deixavam sair as notas depois de eles próprios as verificarem. Ao ver que o Pardal estava reprovado ordenou que fosse revista a situação e que o deixassem passar. A D. Julieta opôs-se. Chumba o Pardal e chumbam todos os outros que são tão cabulões como esse. O reitor tenta impor-se. D. Julieta, a tia Anica, não cede e puxa aqui, puxa ali, perante o impasse propõe:

- Se passa o Pardal passam todos os outros que levantaram, pelo menos, algumas disciplinas. Perante a posição irreversível da senhora, graças ao meu prezado amigo Pardal não averbei mais um chumbo no meu notável currículo.     

 

Devo confessar que a minha falta de aplicação ao estudo não me tornava feliz. Eu conhecia as minhas revoltas interiores e por não as saber compensar desinteressava-me à espera de não sabia bem o quê. Dava como desculpa as diferenças sociais, o que em parte era verdade, mas não deviam ser suficientes para o meu desinteresse, para a minha rebeldia e outras vezes introversão. Lia todos os livros menos os de estudo. Em férias, muitas vezes, minha mãe descia ao primeiro andar porque me sentia às três e quatro da manhã, a ler tudo o que apanhava.

Muitos anos mais tarde, quando professor, verifiquei que eu tinha 5% de culpa pela minha inconsciência; meus pais 15% pelo seu exagerado amor e ignorância; e os professores  80% pela falta de sensibilidade, para não aplicar outra palavra bem mais violenta.

Muitos dos meus professores foram péssimos; obcecados em obrigar a decorar 20 por cento de matéria útil e 80 de matéria inútil só os alunos, muito pacientes, aguentavam tamanha estupidez, prepotência e subserviência a programas de um conservadorismo e inutilidade abissais. Bastava seguir os passos de uma Noruega, de uma França, de um Alemanha, de uma Holanda. Estávamos sós...sempre estivemos orgulhosamente sós...vamos ver se com a parceria europeia conseguimos aderir ao futuro.

A agravar toda esta situação: os professores esqueciam-se de amar, ou seja, de ensinar de uma maneira humana.

 

O segredo do ensino está no professor, tenha ele os alunos que tiver. Ele é a chave. Eu tive professores que foram autênticos desastres. Nunca uma palavra de carinho, de estimulo, de compreensão. Nunca o saberem tornear a irrequietude dos jovens, as suas pequenas faltas, saber aproveitar a sua irreverência, tirar partido dos seus erros, procurar saber o porquê da sua falta de estudo.

 

Eu queria modificar-me mas não conseguia. Rejeitava estudar por solidariedade com aqueles que não tinham posses para estudar. Insistia nesta desculpa para o meu desinteresse. Passava um ano inteiro na brincadeira, no cinema, em pequenas farras, ou lendo livros muito mais avançados para a minha idade. Lembro-me de um livro, do Dr. Egas Moniz, sobre saúde, que li avidamente; ele estava cheio de gravuras com vários tipos de doenças ou deformações congénitas, passava horas tentando entendê-lo e foi de grande utilidade para o meu amigo António Manuel Camejo dos Santos. As senhoras Trigueiros apanharam-no e fizeram-lhe um auto de fé. Aquilo não eram leituras para jovens da minha idade. Fiquei um bocado aborrecido com elas.

Quando fui para os cursos da Mocidade Portuguesa, convidado pelo José Cabaço Neves, fi-lo para ver se encontrava método, ordem, disciplina, se mudava a minha maneira de pensar, se me esquecia que o mundo teima em manter desigualdades. Melhorei um pouco, mas não o suficiente. Mas melhorei. A Organização, fora dos cursos, funcionava como tudo em Portugal; na base do improviso, do desenrasca e das boas vontades de alguns carolas, que pretendiam levar a sério aquilo que o não era. A Mocidade Portuguesa era a tentativa para desviar a juventude dos cafés, do fumo e lhe propiciar actividades saudáveis ao ar livre. Havia sempre quatro ou cinco acampamentos por ano onde só ia quem queria e, normalmente, iam muitíssimos jovens.

Lembro-me de um acampamento, na serra de Monsanto, onde choveu tanto, tanto, que ficámos sem alimentos durante quase dois dias e tivemos de nos deslocar para as instalações da FNAT na Costa da Caparica. Aí acontecem dois episódios que não resisto a contar. Os dois, passam-se com jovens de Cabo Verde.

Eram 8 da noite e ninguém tinha comido. A certa altura aparece-me um miúdo, dos mais novos e diz-me.

- Comandante, estou cheio de fome.

Olhei para ele desalentado. Nada, não havia nada. Com o coração desfeito disse-lhe:

- Tens de aguentar mais um pouco.

- Não consigo, comandante. Mande-me para a enfermaria.

- Mas tu não estás doente.

- Eu digo que tenho febre.

- Não tens.

- Eu faço.

Perante o olhar faminto e enternecedor do miúdo quis verificar o que acontecia. Tínhamos ordens terminantes para só entrarem na enfermaria os doentes. Levei-o ao enfermeiro chefe e disse-lhe.

- Veja lá este. Parece que está cheio de febre.

- Oh rapaz, mostra a língua, o que te dói?

- A barriga sr, doutor. Tenho muita, muita fome.

Eu saí da tenda, rindo, o enfermeiro deu-lhe um pão. Passados cinco minutos o miúdo estava ao meu lado e insistia para que eu comesse metade do que lhe tinham dado. Como recusei, dividiu com outros três.

No fim do segundo dia eu e o Cabaço Neves estávamos extenuados. O nosso sector era formado pelos jovens do Ultramar. Cansados, cheios de sono mas sempre atentos e prontos a acudir a todos os lados pois a chuva continuava a cair intensamente, nós não parávamos um momento; de repente vimo-nos envolvidos pelo agrupamento de Cabo Verde, agarraram-nos, sentaram-nos, tiraram-nos as botas e enquanto nos obrigavam a descansar e a comer foram-nos limpando como se faz aos jogadores de boxe. Depois de uns bons três quartos de hora em que tanto um, como outro, passámos pelo sono, os jovens de Cabo Verde entregaram-nos as botas brilhando de limpeza. Nunca mais os esqueci.

Devido a este episódio escrevi o meu segundo livro: “Tu cá, Tu lá”

 

A rapidez de raciocínio adquire-se com o tempo quando isso não é já uma característica de nascimento ou do desenvolvimento dos primeiros anos. Tenta raciocinar rápido. Faz experiências com os amigos. Analisa até que ponto as tuas respostas são lógicas e cobertas de razão. Se ao dares a resposta, mais tarde verificares que não era aquilo que devias ter dito, então o teu raciocínio ainda não está afinado. Tens de continuar a analisar os teus disparates e as respostas coerentes até sentires elasticidade mental capaz de “golpes de asa” que deslumbram quem te ouve ou observa o teu trabalho.  

 

O Cabaço Neves era uma jóia de rapaz, um irmão, queria ser piloto e a Mocidade Portuguesa tinha cursos de aeromodelismo e aviões sem motor, a seguir entrou para a Força Aérea e foi para os Estados Unidos para um curso de pilotos a jacto. Ficavam numa fortuna ao Estado Português. O Cabaço Neves casou com uma jovem que era comunista, ele começou a ser vigiado; como castigo foi para a Guiné pilotar pequenos aviões. Um dia, aqueles por quem ele nutria simpatia sabotaram-lhe o avião e ele morreu estupidamente.

Estava no barbeiro a cortar o cabelo para ir no outro dia para Paris de automóvel com a família; lia o Diário de Notícias e sou confrontado, de chofre, com a tragédia. Comecei a chorar como uma criança. Durante a viajem chorei quase ininterruptamente. Senti uma revolta enorme.

Eu acredito na comunicação das almas, é a partícula de Deus que nos liga uns aos outros, mortos e vivos. Os mortos, como definimos aqueles que partem para a outra dimensão, só conseguimos ficar com eles se nos três dias seguintes ao seu desprendimento deste mundo nós pensarmos muito neles e não nos quisermos separar e eles também tiverem esse desejo. Era o que estava a acontecer comigo. Tenho a prova que o Cabaço Neves estava ao meu lado porque, perto de Burgos, ao ultrapassar um camião, este barrou-me o caminho; ao travar, o carro rodopiou quatro vezes na estrada perante o olhar horrorizado dos automobilistas que vinham atrás e só não caiu nos precipícios que bordejam a estrada porque uma força estranha me amparou. Estamos no Inverno e havia gelo na estrada.

Escrevi nessa altura “A Revolta e o Homem” com alguns poemas dedicados a um jovem que teve o azar de viver numa época de gente bronca.

Não me revoltei só contra o Governo, revoltei-me contra os incompetentes que nas chefias não sabiam distinguir os valores. Isto acontece quando o défice de cultura é muito grande. Em Portugal não nos têm faltado bons Presidentes da República, bons Primeiros Ministros e Ministros competentes, aquilo que nos faltou sempre foi um escol de funcionários públicos. Alguns são demasiado intransigentes num serviço público que tem de ser flexível nos momentos em que o deva ser. A interpretação rígida das leis levou a que os Censores fossem considerados os seres mais estúpidos à face da terra e os Chefes, que preteriam os mais capazes a favor dos medíocres e dos subservientes, autênticos répteis. Houve excepções, tanto num caso como noutro, mas muito poucas. Repito: neste país não foram os Ministros que erraram, foram os funcionários incompetentes e ignorantes que não souberam dar continuidade a directivas que podiam percorrer várias trajectórias para se atingirem os melhores objectivos.

A culpa destes culpados, sem a totalidade das culpas, está na sua educação.

Em 1965, o Dr. António Martins da Cruz, no livro: “Preocupações de um Deputado” a pags. 32. Diz explicitamente: “É que Portugal será o que for o nosso ensino, e este não será senão o que forem os seus professores”. A resposta para as nossas falhas está toda aqui.

 

Pedi para fazer o 5º ano na cidade da Guarda. Era a maneira de entrar num meio desconhecido e dedicar-me ao estudo. Eu tentava entender-me e lutar contra o meu querer e não querer. Logo no primeiro dia dei o primeiro passo em falso.

Depois de meu pai me ter deixado num belíssimo quarto da “Pensão Central”, ali a dois minutos do Liceu, junto à Sé, o que era um luxo, fui dar uma volta pela cidade. Quem havia de encontrar? o nosso já conhecido Manuel Poppe Lopes Cardoso, o Nélinho, que tinha muita piada, tinha a doidice da juventude, e era um rapaz inteligente. Estava a discutir com outros três: “era impossível beber meio litro de carrascão na Cova Funda,” célebre taverna lá burgo, junto ao café Mondego, agora transformado em Banco e a dois passos do quiosque do bem sucedido comerciante António Guimas Esteves. Eu, gabarola e brincalhão, ao passar, atiro à guisa de desafio:

- Isso? Qualquer um bebe.

O Nélinho, que não me conhecia de lado nenhum, agarrou-me.

- Tu bebes?

- Se pagares.

- É para já. - E lá fomos os cinco. Eu a beber, eles a ver.

Naquele tempo, os jovens da cidade da Guarda bebiam imenso; novos e mais velhos Era o frio e a fama. Aquele que quisesse ser respeitado pelos outros tinha de ser um bom copo.

Hoje, sabemos que isso é um erro. Naquele tempo dizia-se que era para aquecer e para levantar a alma.

Bebi