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Nota prévia

 

Em Março de 1974 saiu a 1ª edição de "Os Homens são Difíceis". O Portugal daquele tempo, as suas falas, a simplicidade do povo e a complexidade da vida nos segredos de cada um resultaram na obra que, por não tencionar reeditar, coloco à disposição dos leitores.

 

 

OS HOMENS SÃO DIFÍCEIS

 

 

0 prazer do desconhecido é uma fonte deliciosa.

A carta indicou-me Penamaior.

Fiquei impressionado com a crueldade da palavra, soletrei-a mentalmente: Pe-na-ma-ior. Este engano trágico quase ia estragando a minha boa disposição. Não sou supersticioso ou pelo menos esforço-me por não o ser, mas chamar Penamaior a uma terra é algo desgastante para uns nervos irritadiços como são os meus. Só no carro consegui esquecer o incidente.

Os pensamentos, leves e inconstantes, aproveitaram esta distracção e esgueiraram-se através do passado. 0 grilar do motor e o barulhar das árvores fizeram o resto.

Aos doze anos dei conta da realidade dos seres à minha volta e senti-me feliz por ter descoberto a vida e o gosto de a viver.

0 campo de motivações alargava-se com o saltitar do tempo e todos os dias descobria algo onde mergulhava maravilhado e me perdia durante horas. Sentia-me forte e capaz de enriquecer as minhas possibilidades. Cedo compreendi o poder do raciocínio e agucei a intuição como seu complemento. Cortei pedaço a pedaço todas as profissões e saboreei-as sempre ávido de não perder uma pitada deste mundo maravilhoso.

Hoje sou padre. Padre! Só de ouvir a palavra sinto a nostalgia da Idade Média.

Padre! Eu que nunca soube distinguir uns braços de mulher de uma oração. Padre!

0 binómio mulher-Deus tem-me acompanhado sempre; quando sai um entra o outro. Serei capaz de desempenhar, com dignidade, este primeiro cargo ao serviço de Deus? Terá o elemento feminino pesado no meu subconsciente para explicar este novo ataque de misticismo?

Ah, o esquecimento é um privilégio! Felizes aqueles que esquecem o dia de ontem e nunca mais o recordam.

Passam os anos tão depressa! Como é fugaz o tempo da inconsciência-feliz! Como vai longe a Terezinha das tranças loiras, de olhos de anjo e de suspiros fundos...

A Maria Luisa, onde estará a Maria Luisa?

Como era ingénua! Brincávamos aos médicos, ela descobriu o que eu nunca tinha notado, quase esqueci a Elizabeth ardente e triste, tão sonhadora como eu, tão necessitada do mundo...acreditando em Deus pelos homens e amando cada homem como se fosse um Deus. Querida Elizabeth! Tudo era prazer; um fogo lento, avassalador, terno, envolvente, infinito... uns lábios... perdoa meu Deus... são as despedidas...

A dois passos do futuro não tenho ninguém. Corro ao encontro de um lugar para cada ser e para cada coisa e não vejo o sitio ideal onde colocar o Homem. Esse homem paradoxo; misantropo e filantropo, pacifico e guerreiro, abstémio e lúbrico.

Esqueçamos as desilusões e as ilusões e abracemos a nova vida com sofreguidão.

Antes de o fazer, e sem Te magoar muito, lembras-Te dos meus dezoito anos, meu Deus? Coberto de misticidade amei-Te como um pequeno déspota abandonei amigos e conhecidos. Desconfiava deles e de mim. Aborreci os próprios pais. Tantos sacrifícios, tantos sonhos desfeitos! Vinte anos de diferença representam uma grande distância... nem eu os compreendia, nem me fazia compreender.

Como Te desejava quando as minhas dúvidas sobre a Tua existência me assaltavam e como tinha necessidade que não fosses uma indelicada ilusão para entreter meninos, sofrear impulsos e servir de suporte a idealismos duvidosos.

Recordas-Te das minhas crises? Como um louco procurava-Te por todos os cantos. Se não vinhas, folheava a cidade. Hoje, sirvo-Te sem condições. Mas o passado? Faz-me esquecer esse monstro de lascívia e podridão... De outro modo serei incapaz de me perdoar tudo quanto fui e tudo quanto passei.

Ainda hoje fico aterrorizado por ver a facilidade como conseguia arrastar os meus companheiros para o caminho onde a minha imaginação irrequieta os levava. Cometia os erros mais graves, os mais impuros, os mais escabrosos, com a desfaçatez e o engenho de pessoa adulta. A seguir, lembras-Te como eu me atormentava, como de repente algo de novo me possuía, como desejava tornar-me honesto, puro, bom... como desejava que os outros acreditassem em mim, que eles me olhassem como modelo?

Como um histrião rojava-me a Teus pés arrependido do lodaçal espalhado à minha volta, pedia-Te humilde e sinceramente que me fizesses à Tua semelhança; Tu acedias. Na mente dos que me rodeavam e conheciam os meus defeitos, os meus desencantos, o meu erotismo doentio, as minhas fraquezas, voltava a ser o poeta do ideal, o desbravador do futuro, dos caminhos do bem, da lealdade, da simpatia cativante... tornava-me o símbolo do homem feliz. Eu! 0 indivíduo mais

nojento, o mais infame, o mais ignóbil, o palhaço mais palhaço!

Homem feliz!

Ninguém, a não ser Tu e eu sabia das minhas noites de insónia e de sofrimento.

Homem feliz!

Deste-me todas as possibilidades para me tornar consciente da minha existência.

Quantas personalidades tive? Vinte? Trinta? Não sei. Fui aquelas que as circunstâncias me forçaram a ter.

Para onde vou espero ser natural, simples, sem orgulhos, sem ressentimentos, sem hipocrisias, sem vaidades, sem recordações, só disposto a amar e a ajudar aqueles que pela sua ignorância necessitem dos meus conselhos. A carta era lacónica: «Siga urgentemente para Penamaior, um grave acidente deixou a paróquia sem o seu pastor espiritual. A chave da residência tem-na o sacristão. Ele é um velho e dedicado servidor que lhe dará os primeiros esclarecimentos. Receberá, posteriormente, novas directivas." Não precisava ler mais.

- Santas tardes.

- Que diz? Chó burro! Ai, o alma do diabo que não está quedo nem um momento! Que diz Vossa senhoria? Onde é a casa do senhor prior? Não tem qu’enganar: Vai sempre a dirêto, quando vir a igreja, a casa anda perto. Chó burro! Ele não está.

- Eu sou o novo prior.

- Homessa! Palavra d’ honra! É o primeiro padre que não tem cara de padre. Veja lá como a gente s’ingana! Palavra d’honra! Desculpe lá isto... a mim já me tinham dito c’agora os padres se parecem ca gente, mas eu nunca me convenci que fosse tanto. O senhor desculpe sim; esta falta sem reverência... compreenda... eu sou o Serralho, sapateiro d’oficio há vinte e três anos e lavrador, dos mais reles, está claro, nem outra coisa era de esperar de um farrapilha como eu. Quando voltar da horta levo-lhe lá umas couvinhas. Se desejar umas gáspeas é só falar.

Das couves nunca é nada. Vossa reverência sabe; a gente até as dá aos porcos, com sua licença. As gáspeas é que lhe ficam um bocadito mais caras, são quarenta e sete e quinhentos. Tiro-lhe vinte e cinco tostões que eu sei o que custa a vida, e agora com a falta do pitrol, as pessoas sempre andam mais à pata...

 

II

 

A primeira missa foi uma desilusão. A chegada do padre não tinha despertado curiosidade e os assistentes podiam contar-se pelos dedos.

Depois do serviço religioso corri para casa. Estava bastante alheio, ao que se passava à minha volta, quando uma voz fortíssima me gritou à entrada do quarto:

- Bons dias, padre!

Apanhei um valentíssimo susto. Vi-me perante um velho amigo ou conhecido, o que me era terrivelmente desagradável.

0 meu interlocutor pareceu compreender a minha aflição.

- 0 senhor está atrapalhado. Não descobre quem lhe devassa a casa e lhe berra aos tímpanos, não é assim? Sou o médico Diogo Palhanca. Apague lá esses receios!

Senti o pensamento descontrair-se.

- Muito prazer doutor, muito prazer!

- Cheguei a pensar que não me tinha ouvido.

Não respondi para não ter que lhe mentir. Ele continuou, indiferente às minhas congeminações:

- O seu colega nunca tirou as chaves da porta e o senhor seguiu-Ihe as pisadas.

Eu fizera aquilo por esquecimento, mas não resisti à tentação de lhe dizer uma frivolidade. Frivolidade essa que me obrigou a conservar sempre a chave na porta, embora muitas vezes me apetecesse arrancá-la dali.

- Os bons hábitos devem sobreviver à derrocada sistemática de tudo o que é antigo e restabelecer a confiança entre os seres.

- Eu sou dos poucos que abusa do privilégio. O seu colega ria-se de me ver aparecer nos sítios mais caricatos; por duas vezes o encontrei na retrete lendo o breviário. Estou convencido que era o lugar das suas grandes concentrações. Com o senhor sucede o mesmo, naturalmente. Os padres sempre tiveram as suas manias...

- As circunstâncias levam-nos a proceder assim. 0 meu antecessor estava longe de imaginar que alguém se atreveria a meter o nariz... naquele lugar.

- Enganava-se. Gosta da terra?

- É saudável.

- Não se deixe iludir... há ainda muita poluição mesmo depois do embargo do petróleo. E a propósito, tem bicicleta? Se não tem empresto-lhe a minha. Eu ando a pé, não aguento os solavancos.

- Agradeço-lhe a sua gentileza e aceito.

- Não agradeça. Para os amigos: mãos rotas. Vou mandar-lha logo que chegue a casa. Venha. Vim buscá-lo para o apresentar à cidade e àqueles que poucas ou nenhumas vezes põem os pés na igreja.

0 médico não parava um segundo, e aquele andar de um lado para o outro, parecia o olhar do hipnotizador que me punha sonolento e predisposto à divagação. Mas o médico não era homem para me deixar sonhar por muito tempo.

- Acorde! Estou a ver que o ar da serra é forte de mais para o seu arcaboiço! Vista lá o casaco e abra-me esses olhos para eles não o confundirem com um morcego!

Achei o médico demasiado expansivo e um pouco irreverente para mim, seu pastor espiritual. Mas, como só na espontaneidade está a amizade, concluí que tinha arranjado um bom amigo. Mesmo assim tentei escusar-me à saída.

- Não posso ir. Não vê como tenho tudo em monte...

- Arruma quando voltar. Um padre é um homem de sacrifícios, ou não é?

Olhei-o com agrado.

- Não tenho outro remédio?

- Não.

No café uma meia dúzia conversava em voz alta.

- Aqui têm o padre - disse o médico com ar prazenteiro. Os outros olharam-me, naturalmente, e um deles observou:

- 0 senhor todos os dias traz uma novidade. Hoje até um padre Ihe serviu para mostrar que é diferente dos outros.

Fiquei amachucado com esta falta de cortesia, e arrependi-me imediatamente de ter acedido ao convite do médico. Este agarrou-me por um braço e apresentou-mos um a  um, como se isso fosse uma grande honra para mim. Por mais esforços que fizesse não consegui fazer boa cara nem fixar o nome de qualquer deles. Sei somente que um era empreiteiro, outro comerciante, um outro, e aquele que me pareceu mais amigo do médico, oficial não sei de quê. Os outros três nem mesmo isso Ihes ouvi.

0 médico falou, falou, mas nem eu o ouvia nem os outros lhe prestavam atenção. Depois de ter bebido um café, sem vontade nenhuma, fiz menção de me retirar. Mas o médico era possessivo, e não permitiu que arredasse pé daquele lugar. A sua ideia era apresentar-me a todos os que entravam no café e a verdade é que fiquei a conhecer meia cidade. Já farto de cumprimentos levantei-me decidido a mandar passear todos os tiranetes. O médico levantou-se comigo.

- Vai jantar a minha casa.

- Nem pensar, doutor.

- A minha mulher terá imenso prazer em o receber.

- Também gostaria bastante de poder aceitar, mas não posso. Veja que é tardíssimo!

- 0 que não fez hoje faz amanhã. 0 trabalho não se estraga.

Mas não. Eu já não podia mais com aquele palrador inveterado. Tinha a certeza que ou o deixava ali com uma boa desculpa ou, se tivesse a pouca sorte de ir com ele, não resistiria a ser grosseiro. Depois de muitos «vai, não vou», lá consegui partir depois de lhe ter prometido que num dos próximos dias não faltaria ao jantar.

Já em casa senti-me o homem mais infeliz do Mundo. Recriminei-me amargamente por ser um desadaptado apesar de todas as minhas experiências e de uma vida de prazeres. Era padre porque queria, ninguém me tinha forçado a sê-lo, e aos quarenta anos já não era criança nenhuma! Mas vá lá alguém dizer que não se é criança em qualquer idade!

Passei a noite inteira dando-me conselhos, por ultimo ficou assente que a minha vida estava definida e, quer quisesse quer não, tinha de aguentar. Um dos factos era evidente: eu acreditava em Deus. Dizendo-me ateu, descrente ou maldizente, no fundo, Deus vivia em mim. Já tinha gozado a vida, por que não dar uma pequena ajuda para a melhoria do ser humano?! E em que ocupação melhor do que a de padre o poderia fazer!? Deus ajudar-me-á, eu farei o resto.

Assim, depois desta conversa salivada mentalmente, ficou assente que houvesse o que houvesse tinha de cumprir a minha tarefa.

 

III

 

A afluência à igreja continuava a ser reduzida e eu assistia diariamente à derrocada das minhas ilusões. Não tendo que fazer, pois em dois meses de permanência nunca tinha realizado um baptizado ou um casamento, lia livros sobre livros e chegava a comprar seis jornais diários.

A partir do terceiro mês tive duas visitantes inesperadas ao serviço religioso; a mulher e a irmã do amigo do médico. As duas eram jovens e só a sua presença alegraria o coração mais infeliz. Habituei-me de tal modo a elas que as minhas preocupações cessaram.

Só bastante tarde dei por esta alucinação. Fiquei apavorado com a profundidade destes sentimentos destinados ao malogro. Conversei comigo o mais racionalmente possível, mas embora a razão me dissesse que isso não era digno de um padre, o coração dizia-me que era próprio de um homem. De qualquer maneira não podia proceder assim. É certo que nenhum outro ser conhecia os meus pensamentos, mas, com a breca, eu era padre!

Andava nesta luta, Mulher-Deus-preconceito, quando a irmã do amigo do médico entrou pela sacristia. Senti as faces colorirem-se apesar do frio matinal e os olhos brilharem de alegria e de emoção.

- Bons dias padre.

«Meu Deus, o irmão mata-me se me adivinha os pensamentos e eu devia morrer de vergonha pelos meus pecados. Porque serei tão frágil perante tudo o que é belo?»

- Bons dias - disse hesitante entre apertar-lhe a mão ou beijá-la enquanto Ihe confessava quanto a sua beleza me fazia bem. Rogar-lhe que fosse o meu anjo da guarda e que não deixasse de vir à igreja todos os dias. Não lhe pediria mais: só a sua presença. 0 coração gritava-me frases, a razão tapava-me a boca. Apertei-lhe a mão tremendo e ela rindo.

- Não tem frio?

- Morro de calor, sufoco - disseram as palavras sem minha autorização. Ela pensou e com razão que eu dizia aquilo por ironia e continuou. .

- Esta sacristia é desconfortável. Não tem um aquecedor?

- Não me devo prender demasiado a esses  agasalhos que só prejudicam a saúde. Nestes

últimos dias não tenho parado um momento; entro e saio da igreja quase de hora a hora.

- De qualquer maneira, precisa de sentir conforto. Não me diga que também não tem aquecimento em casa.

- Também não tenho.

- Sou eu que Iho vou oferecer. .

- Nem pense nisso!

- Irei eu própria entregar a oferta. Não quero perder um padre simpático só porque não tem aquecimento. Gostou?

- Gostei muitíssimo. A senhora estraga-me com amabilidades. Ainda não tenho aquecimento porque há grande dificuldade em arranjar combustíveis...

- Esteja descansado que para si arranjam-se com certeza.

- Eu não desejo ser tratado de modo diferente das pessoas que precisam muito mais desses mimos do que eu.

- Que faço então?

- Ofereça essa quantia, que vai gastar comigo, a outras pessoas mais necessitadas.

- Estou de acordo. Vou fazer o que o senhor diz, mas isso não impede que, um dia destes, eu Ihe apareça lá em casa com o aquecedor.

Com todas as minhas forças desejei que esse aquecedor nunca lá aparecesse. 0 meu tempo de consciência parou enquanto duas correntes de campos magnéticos diferentes lutavam por uma tomada de posição.

Em que pensa, padre?

- Penso que a beleza de alma anda de mãos dadas com a beleza física. - As palavras saíram-me espontâneas e só dei por elas quando iam no ar.

- Ah, ah! Galanteador. Mas ficam-lhe bem as palavras! Noutros padres não as acharia correctas, em si acho-as naturais.

- Peço-lhe perdão. Disse-lhe o que sentia e não o que as conveniências ordenam.

- Ainda bem que me falou francamente.

- A senhora não faz o mesmo?

- Eu sou uma atrasada, o preconceito tem-me dominado, evito o que desejo e faço o que não quero. Consigo não sucede o mesmo?

- Todos procedemos assim. De outra maneira os nossos impulsos arrastar-nos-iam para situações bastante... infelizes.

- Pois qualquer dia fujo da minha prisão e não sei o que isso irá dar.

- Não diga isso. A senhora tem tudo; juventude, dinheiro, liberdade, porquê pensar que está dominada por quem quer que seja? Viva a sua vida e... desde que não perturbe a dos outros... mas a senhora nunca poderá perturbar seja quem for, a sua presença é de tal modo agradável que ninguém terá coragem de resistir a um capricho seu.

- Cuidado padre. Não julgue que os meus pensamentos se parecem com as minhas faces, eles... bem, não lhe digo mais nada. Este não é o melhor lugar para falar destes assuntos. Até qualquer dia. Chega de lamentações.

- Com tudo quanto a senhora possui e com toda a harmonia que respira é quase uma blasfémia sentir-se infeliz.

- Adeus, padre.

- Tive imenso prazer em a conhecer pessoalmente.

- 0 senhor, com essa cara de santo e esses olhitos azuis, sabe dizer palavras bonitas de mais para um padre.

- Antes de ser padre fui tudo. Sou padre há pouco mais de cinco meses e esta é a minha primeira missão.

- É um padre novo...

- Sim, pode dizer isso. Tenho é um pouco de uso, mas acredito firmemente na minha missão.

- Não diga mais, padre, vejo agora bastante bem a sua falta de adaptação ao novo oficio. Duvido mesmo que algum dia se chegue a adaptar.

Riu uma gargalhada alegre e correu pela igreja como uma toutinegra inebriada de felicidade. Eu, se tivesse um lugar onde me esconder tinha-o feito. Os meus pensamentos deviam sair pelas palavras que não queria pronunciar. «Meu Deus, meu Deus!» gritei logo que ela desapareceu, como se este chamamento aflitivo viesse resolver e apagar o que eu já tinha dito e pensado. Senti, nesta altura, que o meu eu, escondido e atrofiado pelas minhas recriminações, tentava a todo o custo levantar-se e forçar-me a uma revisão de pontos de vista. A consciência mais ponderada e calma, como político que sabe do serviço, apontou-me factos: «Até há sete anos serviste-te do mundo, das suas fraquezas, da sua imbecilidade, usaste a inteligência em teu proveito. Já tens a tua conta. Não esqueças os outros que necessitam de ti. Embora a tua natureza seja fraca, tenta resistir. Não compliques o que não é complicado».

 

IV

 

Alguns dias depois desta visita recebi um cartão do amigo do médico para lá ir jantar a casa. Fiquei indeciso, mas acabei por aceitar. De uma maneira ou de outra devia aprofundar os meus conhecimentos sobre as pessoas e nada melhor para isso do que umas noites de convívio.

Diogo Palhanca, o médico, e Clemente, o dono da casa, vieram receber-me à entrada.

- Pontualíssimo! - gritou o clínico. - Entre, está um frio dos diabos.

As senhoras estavam distribuídas pela casa e cada uma apareceu de seu canto para me cumprimentar.

- Não me diga que esteve contando as horas para vir tão certinho. - Disse-me a mulher de Clemente.

- Não gosto de chegar atrasado.

- A expectativa cria emoção.

 - As senhoras estavam desejosas de o conhecer pessoalmente - disse o médico rindo.

- Todos para a mesa. Ai tem o seu lugar padre. Fica ao lado de Leonor.

- Sinto-me muito honrado pela deferência.

- Pela confiança, Padre. Pela confiança! Leonor é a rapariga mais requestada de todo o distrito e o senhor fica ao lado dessa preciosidade.

- Não comece com as suas graças, doutor. 0 padre ainda não o conhece suficientemente para ter a certeza se está a brincar ou a falar a sério.

- Eu a brincar?

- D. Leonor não se aborreça pois qualquer pessoa fica encantada com o seu trato e a sua simplicidade. 0 doutor, mesmo que estivesse a brincar, não pode ter dito uma grande mentira.

- Ah, também o senhor! Só falta o meu cunhado. Também não queres dizer um piropo à solteirona da casa?

- Recusas todos os pretendentes... vem aí a criada, deixemo-nos destas brincadeiras em frente do pessoal. - Disse D. Matilde à mulher de Clemente.

- Isto é uma festa? - perguntei, depois de saborear três pratos diferentes.

- Festa? Este padre sai-se com cada uma!

- Tem razão, desculpe doutor esta pergunta fora de senso.

Clemente elucidou-me.

- Duas vezes por mês jantamos juntos. - Isto é: os quatro. Hoje veio também a Leonor para manter o equilíbrio. Eu e o Clemente almoçamos muitas vezes juntos. Fazemos isto par causa das mulheres. Até já pensámos que o mais simples e... mais económico era trocarmos de mulheres dois dias por mês e cada uma ia matar saudades a casa da outra.

Não sejas trapalhão! 0 padre não faça caso. 0 doutor Palhanca está sempre com palermices e eu nem sei como a Matilde o atura, e o Clemente o deixa dizer essas barbaridades, disse D. Madalena fingindo-se zangada.

- Por que os estás a envenenar, se eles não dizem nada? Não podes negar que temos uma predilecção muito especial pela casa um do outro, não é verdade sua gatinha assanhada?

- Vocês, lá sabem. Eu e a Matilde temos a impressão que funcionamos como robots.

- Robots? Tu um robot? Nem pensar! Tu não és mulher que possas ser comandada à distância e mesmo que o fosses nunca poderia acreditar que o Clemente não deixasse pulso livre à mulher mais bela do país.

- E tu, deixas pulso livre à tua mulher? - perguntou D. Madalena.

- Eu? Ela faz o que quer e ainda Ihe sobra muito tempo.

- Por que representas sempre o papel de homem liberal, Diogo?

0 médico olhou a mulher muito sério.

- Não me fixes assim que me fazes corar. - Disse-lhe esta. - Todos riram e ela continuou:

- Embora os homens façam isso inconscientemente, não há um só que acredite que as mulheres têm massa cinzenta igual à vossa.

- Se me permitem, - disse timidamente - eu não me queria meter no assunto, mas se me calasse poderia parecer que estava de acordo com essa ideia. Na verdade considero a mulher tão dotada como o homem e com os mesmos deveres e direitos que este. E não só eu penso assim: os governos de Ceilão, da Índia e de Israel estão entregues a mulheres como Sitimavo Bandaranaike, Indira Gandhi e Golda Meir.

- Isso passa-se no Oriente.

- Mais uma razão para demonstrar que o homem acredita na mulher; é precisamente do Oriente que vem a lição para o género feminino, pois aquelas que não sabem usar mais do que os atractivos físicos são postas em haréns.

- Eu falo do nosso país - insistiu D. Madalena.

- No nosso país sucede o mesmo! As nossas universidades estão cheias de professoras e os jornais têm os seus melhores colaboradores entre o género feminino.

- Então qual é, para si, o remédio ou o que faz que a mulher muitas vezes sinta um complexo de inferioridade perante o homem? - retorquiu D. Madalena.

- A mulher deixa-se seduzir pelo espantalho da moda, perde qualidades e muitas vezes personalidade. Por outro lado parece-me que a mulher se sente mais feliz deixando correr os acontecimentos em vez de chamar a si a responsabilidade das decisões.

 - Não concordo. A mulher tem um sentido tão grande de responsabilidade como tem o homem, simplesmente a mulher entristece-se com «os brutos matadores» e volta-lhes as costas - disse D. Madalena.

- Não devia voltar, querida - sussurrou Clemente.

- Eu disse: «volta-lhes as costas», mas não disse que abandonava o papel e entregava os seus direitos ao macho pretensioso.

As senhoras riram e D. Madalena continuou:

- Como frisou o padre, existem três mulheres na chefia de outros tantos países e as nossas universidades estão cheias com o elemento feminino. .

- 0 ensino afunda-se! - gritou o médico.

- Tu é que te afundas se continuas a beber dessa maneira.

- Descansa querida Matilde. A Madalena e o Clemente oferecem-me dormida ou então... tu levas o Clemente e eu fico com a Madalena. Os suaves lares ficam de igual modo equilibrados.

Fez-se um silencio de morte. 0 médico exagerava. Competia-me a mim quebrar aquele mutismo.

- Ainda não vi os vossos filhos!

- Esses monstros estão óptimos. - respondeu o médico - Nós é que já não os entendemos de maneira nenhuma. Veja que o meu filho tem uma cabeleira maior que a da mãe. Estes rapazes estão umas nódoas.

- Os homens já usaram cabelos compridos noutros séculos e ninguém os achava nódoas - disse exaltada D. Matilde.

- Defende-os: são uns coitadinhos! Para mim esses sujeitinhos além da falta de limpeza...

- 0 teu filho toma banho e lava a cabeça todos os dias...

- Meu filho ou não estes cavalheiros lembram-me sempre os frangos de aviário.

- Não digas asneiras!

- Porquê, frangos de aviário? - perguntou Madalena.

- Ó filha, deixa-o. Quando ele começa com asneirite só diz disparates.

E D. Matilde olhou sintomaticamente para mim como a pedir-me desculpa do meu cabelo, que havia bem uns nove meses não tinha cheirado tesoura de barbeiro.

Mas D. Madalena insistiu:

- Sempre gostava de saber o que dali vai sair.

- Asneira, não esperes outra coisa.

- Eu faço-te a vontade minha querida amiga. Eles parecem-se com frangos de aviário porque nem cantam nem galam.

- Tu, pelo menos, cantas - disse-lhe a mulher muito séria enquanto todos lançámos uma gargalhada sonora, o médico não se deu por achado, continuou defendendo as suas ideias baixando a pouco e pouco o tom de voz até sair da conversa.

0 jantar foi agradável e D. Madalena mostrou-se uma excelente dona de casa. De vez em quando, o médico metia-se com ela, as suas palavras eram mais fortes do que mandam as conveniências, mas nem o marido nem D. Matilde pareciam afectados pelos ditos. Só D. Leonor ruborizava e eu senti que estas brincadeiras a aborreciam. Ela seguiu sempre as conversas, mas evitava entrar nelas. Olhei-a, muitas vezes, tentando perceber-lhe as reacções; parecia-me distante e muito diferente do dia em que a encontrara pela primeira vez. Os seus olhos castanhos muito grandes ensombravam-lhe as faces, davam-lhe um ar enigmático. Notei que era a única pessoa que o médico respeitava.

Clemente, tal como a irmã, vagueava entre os presentes. Todos o sentíamos, mas ele só se mostrava quando lhe dirigíamos qualquer pergunta. Durante toda a noite manteve-se pensativo e distante: ou tinha algo que o preocupava seriamente ou então as manifestações humanas obcecavam-no na tentativa de as interpretar.

À meia noite despedimo-nos do dono da casa e de D. Leonor. 0 médico falou durante todo o caminho exaltando as múltiplas qualidades de D. Madalena. Eu não tinha respostas e D. Matilde também não.

 

 

v

 

0 Serralho era o melhor sapateiro da região e o maior bêbado de todo  país.

Com ele andavam sempre mais dois; o Zé Jacques, carvoeiro e homem simples, habituado a falar com as estevas, o rosmaninho e a caruma dos pinhais; se não bebia tanto como o Serralho, pequena devia ser a diferença. 0 outro, barbeiro e pescador, acompanhava-os como um filósofo à procura de... nem sabia ele bem o quê. Par vezes esquecia-se do seu papel de moderador e embebedava-se mais do que os outros dois.

Estava à lareira lendo as ultimas quando aquelas três «aves» me entraram em casa.

- Vossa reverência dá licença? - suspirou o Serralho já no meio da casa.

Pelos vapores etílicos percebi logo quem era a minha gente.

- Entrem, entrem.

- Eu não vos disse: o padre Francisco é assim.

- Eu não sou o padre Francisco.

- Não faz mal. É padre, não é? Vossa reverência não se zanga e nós também não. Não é verdade ó Zé Jacques?

- E vens tu a casa do padre sem lhe saberes o nome, isso é que tu és burro!

- Já vos disse: os senhores suas reverências são uns gajos porreiros, não são? Eles até nem s’importam pois não? Eu até fui o primeiro a indicar-lhe o caminho, não fui ó padre?

- É verdade. Se não fosse o Serralho tinha demorado mais uns minutos a encontrar a casa. Sentem-se, sempre estão mais confortáveis e mais quentes.

- Quentes? A escaldar já nós estamos. Se nos sentarmos ao pé do lume rebentamos como o tojo verde. Este «alfabeto» trouxe-nos para vossa re... para vossa re... para o senhor prior resolver os nossos problemas, mas eu continuo na minha: ele é burro chapado e nós estamos mais ensopados que uma esponja porque de outra maneira não lhe daríamos ouvidos nem o viríamos incomodar. Mas ele teimou, teimou e cá estamos. Para mais... eu não sou de missas, aquele também não é, este vai lá quando o rei faz anos... está visto que o senhor está-se marimbando para os nossos problemas e é justo que assim seja. Para mais, o senhor, não é nenhuma tábua de fazer contas para resolver problemas.

Se calhar tomara o senhor que lhe resolvessem os seus e está prá’qui a gente a chateá-lo. Já é mania; este tipo bebe o vinho e os outros têm que cheirá-Io!

- E trouxe eu este desgraçado p'ra falar cuma pessoa fina. Mal empregado tempo que gasto contigo, ingrato do diabo! - disse o Serralho, apontando ameaçadoramente para o barbeiro.

- Posso saber qual é o motivo da vossa visita a estas horas?

- Vossa reverência nem adivinha nem percebe nada disto, mas estes dois bêbados teimosos intuíram em o vir aborrecer e ninguém os convenceu do contrário. Este alarve disse-nos que conhecia muito bem o senhor e mais uma série de palermices e nós, como estamos bêbados, viemos atrás dele.

- Não oiça este tipo, ele a destilar. Não diz coisa com coisa. Enfim, habituaram-no a cortar cabelos, e não a orar, depois mete-se em tudo, sabe tudo, e os outros é que são os burros e ele é o esperto...

- Diga lá o Serralho em que os posso servir.

- Por mim bebo um tintol e estes dois... deve ser a mesma dose. - Disse o Zé Jacques esfregando as mãos e dando estalinhos com a boca.

- 0 senhor prior quer saber o que nós queremos e não o que nós bebemos, - respondeu o barbeiro de sobrolho franzido.

- Posso-lhes oferecer café se assim o desejarem.

- Também aceitamos.

- Cala-te! Tem vergonha nos apetites!

- Nós vimos aqui - começou o Serralho - porque desejamos "imigrar."

- Emigrar? Nesta altura? Vocês não estão bons! Não lêem os jornais?

- Eu bem disse que era escusado. É tudo o mesmo! Os outros dizem-nos que barbeiros, sapateiros e carvoeiros não são profissões para "imigrar." Que lá fora já não se usa disto, que arranjemos outras profissões para fabricar os papeis como manda a lei. Este diz-nos para ler jornais, bolas para os homens e para os padres!

- Não me está a compreender...

- Estou. Então não estou!

- As vossas profissões são bastante dignas e... na hora actual um carvoeiro é um elemento de muitíssima utilidade.

- Eu sou bom! - disse o Zé Jacques entre duas goladas de café.

- Tu és bom e burro porque te deixas levar com duas patranhas. 0 padre fala-nos da dignidade da nossa profissão porque não tem oito filhos a sustentar como tens tu, dezasseis como o Serralho e cinco como eu! Damo-lhes de comer com que dinheiro?

- Primeiro, parto do princípio que ainda vos sobra algum para gastar em vinho, por isso, ele não pode ser assim tão pouco como fazem crer; segundo, porque esta seria a pior altura para emigrar. Quando vos perguntei se não liam os jornais era precisamente para vos mostrar o que se está a passar em toda a Europa. Todos os países estão a despedir os trabalhadores estrangeiros par falta de trabalho. Vocês sabem muito bem, que a falta de combustível afectou quase todo o Mundo, nós mesmos sentimos essa falta. Agora se vocês quiserem que eu contribua ainda mais para a vossa desgraça, tentarei arranjar-vos todos os documentos, mas antes disso aconselho-vos a passar uma vista de olhos por qualquer jornal. Não há um só que não fale sobre este assunto.

Com quase todos os jornais em cima da mesa desde o «Primeiro de Janeiro» à «República» fui-lhes explicando pacientemente o que se tinha passado nos últimos seis meses. Eles riam e comentavam a situação como se aquilo não fosse mais do que uma brincadeira de crianças.

0 Zé Jacques não se cansava de exclamar: - Ah, Árabes duma cana, que os faz andar a todos de rabo alçado! Era o que ria mais.

Durante horas tive de os ouvir. Entraram perto das dez da noite e saíram às cinco da manhã! Várias vezes tentei fazer-lhes compreender que tinha de me levantar cedo. 0 Zé Jacques, que ia pondo achas no lume, respondia-me em tom conselheiral:

- Passe as missas para as seis da tarde. Goze as manhãs na cama e receba os amigos. Verá que assim a freguesia aumenta. Beba-lhe mais um copo e coma uma isquinha de presunto que isso passa. Eu amanhã trago-lhe mais lenha. Num tenha medo, caramba! Pode-se acabar o pitrol em todo o Mundo, mas cá em casa não há-de ter frio!

Tive de concordar, também não tinha outro remédio. Abri mais três garrafas que eles beberam como verdadeiros apreciadores. Aquela sem-cerimónia fez-me pensar no primitivismo da situação e ao que eu tinha descido. Estava desolado pela minha impotência, e mais desolado fiquei quando o Serralho, que até ali se tinha comportado mais ou menos bem, se voltou contra mim, esquecido da razão da minha atitude.

- Estive cá a pinsar.

- Queres dizer: a destilar.

- A destilar ou a pinsar tudo é igual. Eu cá digo aquilo que sinto e não aquilo que sei.

- Que é que tu estivestes a pinsar, meu brutinho? Vê-se logo que na terra deste animal só há burros e carvoeiros e logo por pouca sorte este não é carvoeiro.

Todos rimos da fala do Zé Jacques. O Serralho continuou.

- Pois é, estes tipos foram capazes de inventar estas coisas do pitrólio para nos tramarem e o padre ajuda-os: entretém-nos com papas e bolos e come-nos a ideia. 0 que o senhor quer é ca gente lhe aqueça a casa, lhe corte o cabelo e lhe deite meias solas nos sapatos por uns míseros oitenta ou noventa escudos...

 - Cala-te ingrato malvado! Só a bebedeira te deixa falar assim.

- Fala o imbecil! e é bem certo o ditado: Deus faz o homem à medida das suas aspirações e este brutinho tem somente aquilo que merece. Habituaram-te ao carvão e hás-de andar de cara enfarruscada toda a vida!

- És um incivilizado que acreditas em tudo o que te dizem...

- Ó pá, não sejas malcriado. Já ofendeste o padre e agora metes-te comigo? sempre gostaria de saber o que significa a palavra incivilizado para ter a certeza que não estás a chuchar comigo.

- Ó pá, não lhe ligues - disse o Zé Jacques - este tipo tem a mania das inculturas, dos incivilizados e do raio que o parta, com a licença aqui do senhor prior, que eu já estou farto de vos aturar a todos sem ofender o dono da casa que me parece boa pessoa e tem uma pinga de trás da orelha.

- Mas eu quero saber o que é incivilizado ou daqui num saio até que isso se esclareça.

0 Zé Jacques pôs-lhe a mão no ombro.

- Eu, noutras coisas sou negativo, mas na minha ideia... civilizado é o animal que come bem todos os dias e toma banho dia sim, dia nã