SEXO
E MAGIA DESENCADEARAM
A
II GUERRA MUNDIAL
NOTA PRÉVIA
Escrito em 1995, o “Sexo e Magia, Desencadearam a
Segunda Guerra Mundial”, este livro é premonitório quando, a determinada altura
diz: “As próximas guerras não serão conflitos de cavalheiros. Há-de ser o
terrorismo escondido, cego, cínico e hipócrita que destruirá o mundo.”
Como não tenciono reeditar a obra, e como há sempre
alguém a querer ler, o que já não existe nos escaparates das livrarias, aqui
fica na Internet para satisfação desses apetites.
CAPÍTULO I
Judeus, ciganos e cães
de caça é tudo a mesma raça! Judeus, ciganos e cães de caça é tudo a mesma
raça! Cantarolavam doze ou treze miúdos saídos da abadia de Lambach do Traun,
alta Áustria, enquanto atiravam pedras a três madeireiros que aproveitavam
velhas árvores para juntar mais algum dinheiro às suas magras economias.
Um dos homens, de cabelo
muito escuro e tronco atlético ergueu-se um pouco e gritou-lhes:
- Se nos acertam,
desgraçado daquele que for apanhado.
Os rapazes calaram-se.
Passados alguns segundos, o mais irrequieto retorquiu.
- E o que é que fazes,
porco judeu! Ide para a vossa Terra.
- Vai-te embora rapaz.
Não me faças perder a cabeça.
- Vai tu para a tua
terra, porco judeu.
A um sinal, os miúdos
descarregaram todas as pedras que tinham disponíveis. Os homens mal tiveram
tempo de se abrigar atrás das árvores. O mais forte disse para os outros.
- Vamos agarrar aquele
que falou. Ele é o chefe. Enquanto eu lhes chamo a atenção, vocês tentem-no
apanhar. Aos outros assustem-nos.
Quando
os miúdos viram os dois homens aparecerem-lhes por trás e alguns deles levarem
uns bofetões, fugiram. Adolfo enfrentou-os tentando proteger a fuga dos amigos
e gritando para o seu irmão de leite:
- Foge Willy! Eu não
tenho medo.
- Ai não? Já vais ver.
- Larga-me judeu!
Larga-me antes que te arrependas!
O homem deu-lhe uma
bofetada. O miúdo respondeu-lhe com um pontapé e tentou livrar-se das mãos dos
lenhadores. Não o conseguindo continuou a insultá-los até que apareceu o mais
forte.
- Grande sacanote! Ainda
pensas continuar a dizer parvoíces, ainda?
O homem passou-lhe as
mãos pelos cabelos e acariciou-lhe as faces. O miúdo sentiu um arrepio de nojo.
- Não me toques, porco
judeu!
- É isso que te ensinam
na escola? É pena. Tens uma carinha tão linda… o teu pensamento não se parece
nada com o corpo.
Não me toques! Deixa-me!
Os polícias vão saber o que vocês fazem aos mais pequenos. Se eu tivesse o teu corpo
não me agarravas assim. Deixa-me!
- Eu deixo-te depois de
jurares que nunca mais te meterás connosco, nem farás com que os teus amigos
aqui venham,
- Eles foram chamar
reforços. Vocês vão-se arrepender.
- Coitados dos teus
amigos. A estas horas devem estar borrados de medo. Deixemos de conversas.
Juras ou não?
- Preferia morrer!
- Se é isso que tu
queres. - O lenhador acariciou-lhe, de novo, as faces. O rapaz, de olhos muito
abertos, cuspiu-lhe para o rosto. O homem deu-lhe um bofetão e ele começou aos
pontapés e a tentar fugir daquelas garras.
- Está quieto, senão
apanhas mais. - Adolfo não parava, cuspia, esperneava, mordia.
- Agarra bem este filho da puta. Ele quer brincadeira, vamos dar-lhe a
brincadeira. Despe-lhe as calças. Vai levar tantas no rabo que nunca mais há-de
esquecer este dia.
- Deixem-me! - Gritava Adolfo.
- Deixem-me!
- Pede perdão. Jura que
nunca mais te metes com quem trabalha.
- Deixem-me! Vocês vão
pagá-las!
- Segura-o bem. Deita-o
sobre aquele tronco de árvore e tira-lhe as calças enquanto eu procuro uma boa
vara que lhe marque o rabo.
- Devíamos cortar-lhe a
pilinha. - Disse Isaías rindo.
- Boa ideia. - Respondeu
Abel.
O miúdo continuava a
gritar, espernear, cuspir, arranhar. A muito custo quase o despiram. Jacob
passou-lhe a mão pelo corpo.
- Largai-me! Porcos!
Largai-me! Socorro!
- Bem podes gritar.
O miúdo conseguiu
esticar a perna com tanta força que bateu no sexo de Isaías. Este cambaleou
cheio de dores.
- Que grande cabrão! -
Gritou desesperado enquanto lhe dava uma violentíssima vergastada.
- Cuidado! - Gritou Jacob.
- Tu não vês? Estou
cheio de dores! O Abel sangra abundantemente por causa das unhadas deste
selvagem e ainda queres que tenhamos cuidado com ele? Que grande filho de puta!
- Deitai-o sobre a
árvore. Ele vai gemer e bem!
Adolfo mordeu as mãos de
Abel. Este agarrou-o brutalmente e disse para Jacob.
- Este cabrão só se
acalma, se levar uma enrabadela! Enraba-o, Jacob!
Jacob olhou os outros
dois, abriu a braguilha e Adolfo sentiu a carne rasgando-o.
- Não! Porcos! Não!
- Segurai-o bem! -
gritou Jacob, que, nervosíssimo, tentava penetrar o rapaz.
- Ai! Ai! - Gritava Adolfo.
- Porcos! Porcos! Deixai-me!
Nisto ficou inundado de
um líquido pastoso que o incomodava. Sentiu retirar do ânus um pouco de carne
mole.
- Já estás mais calmo? -
Perguntou Ismael.
Adolfo inclinou a cabeça
de modo a esconder algumas lágrimas que, raivosamente, teimavam em cair. Jacob
desculpou-se.
- Este sacana
excitou-me. Só consegui meter um bocado. Mesmo assim está a sangrar.
- E vai sangrar ainda
mais até pedir perdão e jurar que nunca mais volta aqui a aparecer. Pedes
perdão?
A cabeça de Adolfo
latejava. O rapaz morria de ódio e vergonha. Estava muito pálido.
- O gajo está a passar
mal. - Disse Isaías.
- É para aprender.
Deixa-o descansar um pouco, já leva outra enrabadela. E vai levar tantas,
quantas conseguirmos até tomar juízo. É à vez. Temos o resto da tarde e a
noite. Vais ver o que é gozar um judeu, meu grande sacana. Pedes perdão?
O rapaz não respondeu,
deixou-se ficar na posição em que estava. Fechou os olhos. Os homens afastaram-se
um pouco. Quando os sentiu distraídos levantou-se. Em correria louca
desapareceu numa das pequenas minas abandonadas que ali se encontravam, Os
homens correram atrás dele. Exaustos de excitação e um pouco receosos pelo acto
cometido terminaram as buscas passado algum tempo. Adolfo, tremendo de frio e
vergonha manteve-se, por mais duas horas, quieto mas vibrando de ódio e com
receio de ser descoberto e voltar a ser violado. Não tinha coragem de mexer nas
nádegas que continuavam peganhentas e latejantes. Quando o fez, os vómitos
deram-lhe volta ao estômago.
CAPÍTULO II
Ao chegara casa roto,
sujo e pálido como um cadáver, deu a desculpa que tinha caído numa das grutas.
- E os teus colegas?
- Não viram.
- Nem o Willy Schneider?
- Insistiu a mãe.
O miúdo não respondeu.
O pai, Alois Hiedler
(Schicklgruber), que já tinha sessenta anos, não acreditou no rapaz. Disse para
a mulher, Clara Paetzl.
- Vê o que se passa com
ele. O garoto está cada vez mais parvo.
- Não lhe ralhes.
- Ele precisa de umas
correadas naquele lombo para ver se toma juízo.
- Tens-lhe batido todos
os dias.
- Nem que fosse a todas
as horas. Este não toma jeito. É preguiçoso, refilão, rebelde e incapaz de
fazer qualquer coisa bem feita.
Tu não tens paciência
nenhuma para o garoto.
- Não sei a quem ele
saiu. Eu vim do campo e cheguei a oficial superior das alfândegas. Ele já
reprovou um ano e a ir por este caminho há-de ser um desgraçado ou há-de fazer
dos outros uns desgraçados.
- É da doença.
- Que doença? O médico
só lhe encontrou uma estranha protuberância no cimo da cabeça.
- O padre disse que ele
tinha o diabo no corpo.
- Esses têm sempre de
inventar qualquer coisa.
- Se ele não o tivesse
ajudado ainda hoje vivíamos naquele desassossego.
- O médico disse que ele
seria sempre um torturado da cabeça.
- Que estranho mal,
Alois. Quando se zangava com um companheiro, mal anoitecia começavam a chover
pedras nas casas dos amigos. A vizinhança vivia aterrorizada.
- Aquilo era muito
esquisito.
- E quando ele e o Willy
Schneider estavam juntos e zangados com os outros?
- Eu perdia a cabeça e
só não os corria a pontapé porque o outro não era meu filho.
A minha mãe descobriu
que tudo era por causa dele. Foi num dia em que lhe ralhou. Ele ficou muito
assustado. Pôs-se a olhar, muito sério, para os vasos de flores que, sem
ninguém lhes mexer, se voltaram e mudaram de lugar. A minha mãe, se não o visse
ao pé dela, iria jurar que ele tinha feito aquilo.
- Este rapaz dá cabo de
mim. Ele põe-me doido.
- Temos de o levar com
paciência.
- Nunca pensei, na minha
vida, passar semelhantes vexames.
- Ele ficava com os
olhos postos no vago e por mais que falássemos para ele não respondia. Se lhe
tocávamos entrava em fúria, deitava-se para o chão, batia com os pés. Ficava
completamente transtornado.
- O dinheiro que gastei
com ele dava para governar outra casa de família.
- O médico acabou por
concluir que ele sofria de leves perturbações psicológicas. Deu mesmo a
entender que podia ser esquizofrénico.
- Pelo menos, esse deu
uma resposta racional.
- Mas o padre também
acertou. Disse-nos para mudar de lugar para evitarmos que ele tivesse
aborrecimentos e que estes fenómenos tomavam o nome de poltergeist.
- E vê as terras por
onde andámos. Braunau, Passau, Linz, Hafeld, Lambach, Leonding. Quanto dinheiro já
derreti por causa deste fedelho!
- Melhorou.
- Ele nasceu a 20 de
Abril de 1889 em Braunnau. Vai fazer onze e vê o estado em que ele se encontra?
- Há-de passar.
- Não tivemos sorte com
os filhos. A Paula é meio taralhouca e este ainda é mais parvo do que parece.
- O médico disse que
pode ser da nossa consanguinidade.
- Este rapaz ainda irá
causar grandes problemas. Vai vê-lo. Ele está a arder em febre, mas só para não
dizer o que lhe aconteceu há-de fingir até cair para o lado. E eu, para não
perder a cabeça, o melhor é não ir até lá.
- Espero que os
fenómenos que sucederam há cinco anos atrás não regressem de novo.
Adolfo esteve vários
dias sem ir ao colégio. Teve febre altíssima e gritava de noite coisas incompreensíveis.
CAPÍTULO III
As violentas crises onde
o poltergeist se manifesta não reapareceram, mas a partir daquele infeliz dia,
Adolfo nunca mais foi o mesmo. Acordava várias vezes de noite. Gritava como um
possesso: “Não! Não! Não faça isso!”
Ao convite dos colegas
para irem atormentar judeus, respondia invariavelmente:
- Hoje não. Tenho que
fazer.
Nem o amigo Willy
Schneider o conseguiu demover desta atitude que lhe fez nascer ódio doentio no
inconsciente.
Vagueava pelos cemitérios.
Olhava as campas. Quem o visse diria que bebia nelas a sabedoria, escondida e
desaproveitada, dos que voltaram à outra dimensão sem terem compreendido o
porquê de uma passagem tão rápida e tão sem sentido nesta vida.
Na igreja, os cânticos e
os ofícios do culto faziam-no entrar em êxtase. Quem olhasse para ele, e não
conhecesse a sua parte rebelde e turbulenta, ficaria a pensar que ali estaria
um santo.
O abade de Lambach que
lhe conhecia a irreverência e a costumeira indisciplina admirava-se da
modificação, mas os trabalhos eram tantos que o foi esquecendo.
À medida que os anos
passavam Adolfo tornava-se mais reservado, irascível, apático ou turbulento. As
mudanças de humor eram inesperadas. Tudo o aborrecia. Sempre ruminando vingança
e sempre temendo aqueles selvagens de pele escura e de cabelos muito negros.
Adolfo, apesar de
inteligente, nunca foi bom aluno. Quando pensava que iria fazer tudo com uma
perna as costas, lembrava-se da violação que sofrera; sentia calores
insuportáveis. Nunca mais se recordava das matérias.
CAPÍTULO IV
Desde os finais do
século dezanove, a Alemanha possui pequenos cursos técnicos que toda a
juventude é obrigada a frequentar segundo as inclinações de cada um, para que
as tendências, aptidões e capacidades dos jovens sejam aproveitadas ao máximo.
Aos dezasseis anos,
Adolfo tira um pequeno curso de serralheiro e dedica-se a pintar.
Continua a visitar
cemitérios numa tentativa obsessiva de encontrar a maneira de resolver o seu
ódio.
Kubizek, um amigo de
longa data, diz-lhe:
- Andas estranho.
Ninguém te encontra. Dizem-me que passas o tempo nos cemitérios. Esperas
encontrar aí a fórmula mágica para resolver os problemas dos homens?
- Ou para os complicar.
- Não me admiro. Sempre
foste inclinado para a magia negra. Lembras-te da chuva de pedras?
Adolfo ficou muito
sério.
- Muda de conversa.
- Tens-te preparado para
entrar na Academia?
- Tenho.
- Que fazes agora?
- Uns biscates, aqui e
ali.
- Lembras-te dos tempos
de Lambach?
Adolfo corou.
- Esqueci tudo.
- Os judeus, que costumávamos
arreliar, mudaram-se para os arredores de Munique.
- Espero que morram em
breve.
- Com as artes mágicas
que bebes nos cemitérios, eles estão nas tuas mãos.
- Chega. Queres ouvir o
Grande Mestre?
- Lá continuas tu com a
loucura do Wagner. Não sei que febre deu a toda a gente para andarem obcecados
com Wagner depois de o terem escorraçado durante tantos anos e de o terem feito
provar o gosto amargo da miséria.
- É o destino dos
génios. Wagner incita-nos a ir mais longe.
- A mim não me incita a
nada.
- Vem daí. Verás como te
sentes outro.
Enquanto assistem à
ópera, Kubizek vê que o amigo se transforma. Ele é outro. A sua face
ilumina-se. Parece viver em êxtase cada um dos acordes da música.
À saída vagueiam pela
cidade de Linz, dirigem-se para a parte mais alta. Adolfo está perturbado.
Agarra as mãos do amigo. Este sente uma sensação estranha, Hitler confessa-lhe
a sua paixão por Wagner e diz-lhe que só os puros, como eles, se poderão
entender. Dá-lhe pequenas palmadas nas mãos, Kubizek sente o gosto complexo e
confuso entre o prazer da amizade e o sabor feminino do híbrido indefinido.
Perante a perturbação do amigo, Adolfo descansa-o.
-Vamos. Vou deixar-te em
casa. Um dia compreenderás a minha atitude.
- Que atitude?
- Nada. Nada, – Respondeu
Adolfo largando-lhe as mãos.
- E tu, vais para onde?
- Depois de Wagner e da
tua companhia... só me resta Stephanie. Ando muito confuso, Kubizek. Adeus.
Adolfo dirigiu-se para
casa de Stephanie.
- A estas horas?
- Aborrecida?
- Claro que não.
- Ficas cá?
- Importas-te?
- Está à vontade.
Enquanto a rapariga
preparava chocolate quente, Adolfo imaginava como ia ser a noite. Estava excitadíssimo.
Só de pensar no que lhe podia acontecer ficava estarrecido de pavor.
Apetecia-lhe fugir. A tentação era mais forte do que a sua vontade. Não
resistia a uma mulher bonita, mas nunca conseguira ter uma relação aceitável.
Amaldiçoava os judeus.
- Muito quente? Pouco
quente?
- Pouco quente.
Adolfo e Stephanie
tomaram banho e deitaram-se. Mal a rapariga lhe tocou, Adolfo inundou a cama.
- Desculpa Stephanie,
desculpa. Eu gosto tanto de ti que não sei como isto acontece. Com as outras...
- Chiu! - Disse-lhe
Stephanie rindo. - Não faz mal, o que eu quero é estar contigo. Isto não tem
importância. Esta amizade que nos une, este companheirismo é mais forte do que
tudo o resto. De onde vieste?
Adolfo contou-lhe a ida
à ópera. A rapariga, ou por desilusão ou porque estava extenuada, adormeceu
passados alguns minutos. Adolfo insultou-se pela sua desdita.
“Minto! Nunca soube o
que era uma mulher. Porque acontece isto comigo? Malditos judeus!”
Adolfo adormeceu. Às
cinco da manhã começou aos gritos.
“Não! Não! Por favor,
não!” - Stephanie agarrou-se a ele.
- Calma, meu amor.
Calma. Eu estou aqui.
Adolfo encharcado de
suor contorce-se como se, sombras invisíveis, o atacassem. A rapariga limpa-o
com toalhas quentes e húmidas. Tenta acalmá-lo. Adolfo está aterrorizado. Ele
encolhe desesperadamente as nádegas. Stephanie sente isso e mexe-lhe. Adolfo dá
um urro enorme,
- Aí não! Aí não!
- Mas que é, meu amor?
- Vou para casa.
- Nem pensar! Descansa.
Deita-te!
- Não. Não quero. De olhos
fechados, não. Vejo figuras horrendas, de cabelos pretos e pele escura. Não,
Stephanie!
- Meu amor. Eu gosto
tanto de ti.
- Vou-me levantar.
Vou-me embora.
Adolfo, mal deu tempo a
Stephanie de se lhe opor. Saiu apressadamente de casa. No caminho pensa:
“Todos me enganam. Esta
desgraçada engana-me! Anda metida com outro ou outros. Como pode ela estar a
chamar-me de meu amor, a dizer-me que gosta de mim se eu não a consigo
penetrar? Vagabunda!”
CAPÍTULO V
Adolfo tenta afastar os seus fantasmas. Quer ser
arquitecto.
Enquanto prepara as provas para a Academia faz pequenos
trabalhos. Frequenta assiduamente a biblioteca de Linz e lê avidamente Kant,
Schopenhauer e Nietzsche cuja doutrina sobre a raça superior o fascina.
Frequenta sociedades secretas. Em Braunau já tinha entrado em sociedades
espiritistas que ele achava ridículas. Nas sessões tudo o que acontecia era por
seu intermédio e pelo de Willy, mas nem um nem outro diziam nada porque os que
iam às sessões pareciam loucos, paralisados pelo fanatismo.
Em Lambach Adolfo conhecera o monge cisterciense Joseph
Lanz, que falava na conquista da montanha mágica situada no monte Elbrouz, só
acessível aos iniciados de poderes invulgares. Devia ser essa montanha que ele
e Willy visitavam quando voavam em sonhos mediúnicos e se encontravam com os
antepassados. Era o segredo deles. Pensavam que aos adultos lhes sucedia o
mesmo.
O seu interior continua a sair para o desconhecido mas
tem receio de não saber controlar a viagem para fora do pensamento, nem como
resolver os seus anseios.
O oculto e a magia dos dogmas seduzem-no mas também o
confundem.
Desesperado, masturba-se, diariamente, em frente a um
velho espelho e verifica a sua mudança de expressão consoante as fases do
prazer. Tenta a todo o custo expulsar o demónio da tentação que o inibe de ter
mulher mas não o impede de ter desejos. Tem necessidade de afecto e encontra-se
à deriva porque não consegue dar nem receber como gostaria.
Em cada dia que passa o seu ódio aos estrangeiros
aumenta.
É um falhado. Falhado na escola, falhado no sexo,
falhado no trabalho.
CAPÍTULO
VI
- Ei, bonitão, precisas de companhia?
Adolfo olhou a moça. Era muito bonita. Virou-lhe as
costas e fugiu apressado. Ainda a ouviu rir e chalacear com a falta de
virilidade dos alemães.
Adolfo ardia em vergonha. Devia ser uma prostituta
estrangeira. “As mulheres arianas tinham pudor”. No quarto, lamenta a sua
sorte. O seu sangue tinha sido contaminado por aquele maldito que o possuíra.
Ele havia de se vingar. Levantou as mãos ao céu e gritou:” Também eu quero
acender o fogo sobre a terra! Diz-me como hei-de fazer e obedecer-te-ei
cegamente! Diz-me! Diz-me!”
Adolfo deixou-se cair pesadamente sobre a cama e
adormeceu. Logo de manhã voltou ao quarto de Stephanie.
- Tentei encontrar-te. - Disse a rapariga.
- Eu sei. Ando para aí. Salto de um lado para o outro.
- Eu amo-te tanto!
Adolfo olhou-a tentando compreender como era possível
ela mentir daquela maneira. Apeteceu-lhe insultá-la. Afinal ele não ia pedir
amor. Suplicava amizade, compreensão. Porque havia ela de estragar tudo?
- Vou-me embora. Vim perturbar-te. Não me sinto bem. A
verdade é que não me sinto bem em nenhum lugar.
- Fica. Disse alguma coisa que não devia?
Adolfo abanou a cabeça e saiu a correr...
“Porque mentem as mulheres?” – Pensou. - “ E porquê? Com
que interesse? Já falhei tantas vezes! Porque tentará ela enganar-se e
enganar-me?”
- Olá! Por aqui a estas horas?
Adolfo assustou-se.
- Olá, Annemarie, acabei de sair de casa.
- E eu vou entrar. Anda. Vem comigo.
- Não. Hoje não.
- Vem. - Disse-lhe a rapariga com ar gaiato. Adolfo quis
arranjar uma desculpa. Não conseguiu. A vontade de afecto, de carinho, de posse
era mais forte que ele. Ao entrar no quarto sentiu suores frios percorrerem-lhe
o corpo. Todo ele tremia. Lavou-se rapidamente e meteu-se na cama. Enquanto
esperava pela rapariga o sexo parecia rebentar-lhe. Tentava desesperadamente
conter os seus impulsos. O coração pulsava tão desordenadamente que iria
estourar a qualquer momento. Annemarie nunca mais saia do banho e ele torcia-se
na cama para suster aquele jacto inofensivo e incapaz de fecundar qualquer
mulher. Mal Annemarie caiu sobre ele, o desastre foi instantâneo. Ela riu a contra
gosto. Ele sentiu o som falso das palavras.
- Tinha acabado de tomar banho. Não esperava este.
- Desculpa, Anne. Desculpa.
- Não tem importância. Não fiques aborrecido. - Insistiu
a rapariga. Quanto mais insistia, mais Adolfo ficava magoado. Vestiu-se. Tinha
fugido de um insucesso. Tinha caído noutro.
- Tenho de ir. Estou tão cheio de pressa que me
aconteceu aquilo que raramente me acontece.
- Sou eu que sou fogo, meu querido. Tu entras
imediatamente em ebulição. Tens de estar mais vezes comigo para treinares. Eu
gosto do teu sexo. É bem desenvolvido, é bonito.
Adolfo estava furioso “A gaja ainda goza. É bonito mas
não presta é o que ela quer dizer”
- Tenho de ir.
Já na rua, o peso da vergonha sufocava-o. O impudor da
rapariga deixava-o estarrecido. “Já não se encontram mulheres como as do tempo
da minha mãe. Mulheres sérias que nem sabiam o que era o sexo, nem o viam, mal
o sentiam e isso já as satisfazia. Este país tem de mudar. Logo que entre na
Academia vou procurar um médico.”
CAPÍTULO VII
Adolfo Hitler apresentou os seus trabalhos na Academia
em Viena, respondeu a perguntas e foi reprovado. Ficou louco.
“Tudo está contra mim.” - Kubizek tenta consolá-lo.
- Tens de saber o que aconteceu. Pode ser que tenhas
ainda hipótese de entrar.
Ao pedir explicações na Reitoria, Adolfo soube que a
decisão era irrevogável e que dos sete membros do júri, quatro eram judeus. A
partir daquele momento o seu ódio ao povo judaico tomou-se obsessivo. Era o seu
segundo orgasmo incontrolável.
Até ao início da Primeira Grande Guerra, Adolfo mastiga
a raiva, frequenta prostitutas e bares de proxenetas e homossexuais onde esmaga
o pensamento e a frustração. Gasta, nos primeiros dias do mês, a pensão que lhe
ficara depois da morte do pai. A mãe não consegue que ele arranje um trabalho
fixo e irá morrer “Sem ver o filho encaminhado”. Passa grandes dificuldades.
Entra nos desvarios mais sórdidos para não gastar dinheiro e matar os seus
impulsos. A raiva do fracasso empurra-o para o abismo dos sentidos. Quanto
maior repulsa sentia pelo corpo, mais ele se enterrava na degradação. Todas as
prostitutas o conheciam pelo esfrega. Nunca era capaz de ter uma relação
aceitável. Compensava-as com fantasias inconsequentes que as alegravam e as
fazia experimentar tudo o que a sua imaginação depravada lhes propunha.
Deixavam-no divagar pelo labirinto do corpo. Se os percursos eróticos não as
satisfaziam, também não as aborreciam. A ele travavam-lhe a fúria homicida que
fervilhava, permanentemente, na sua cabeça.
CAPÍTULO VIII
Adolfo sente, que sabe aquilo que nunca lhe foi
ensinado. Pensa-se um predestinado incompreendido. Parte para a Baviera e entra
na Seita dos Iluminados. Está disposto a aprofundar todos os conhecimentos
sobre os poderes do infinito e dos espíritos hostis. Assiste aos cursos sobre
retórica que ali são ministrados. Mais tarde entra no grupo Thulé onde conhece
Gottfried Feder, Hanz Frank, Dietrich Echart, Von Sebottendorf, Anton Drexler,
Rudolfo Hess e Alfredo Rosemberg. Consideram-no muito subserviente e ávido de
aprender tudo quanto de misterioso e secreto a Seita lhe possa ensinar.
Dietrich Echart gosta dele. Toma-o sob sua protecção.
Considera-o inteligente e louco, quanto baste, duas qualidades que ele admira.
- Adolfo. Estes grupos esotéricos servem para
conhecer os desígnios dos deuses. Eu vi, nas últimas invocações, que uma luz
brilhou sempre sobre a tua cabeça. Temos de fazer a vontade aos mágicos
espíritos de Luz. A Alemanha não é só a Prússia,
é a Áustria, a Renânia, todos os povos de raça alemã ou de origem germânica. A
união desses homens e mulheres de sangue imaculado fará a grandeza da Alemanha.
É o império sagrado a que todos nos devemos devotar.
CAPÍTULO IX
Com a ida para a Baviera as suas fúrias acalmaram.
Dietrich emprestou-lhe dinheiro e foi ao médico. Já estava dentro do
consultório quando reparou que o Dr. Marx era judeu e estava bêbado. Pensou
retirar-se. Depois achou preferível ficar. Com médico bêbado sempre teria mais
coragem para lhe contar as suas desventuras.
- Muito bem. Muito bem. É o mal do século. O mundo vai
acabar por falta de freguesia. - Disse o médico.
Adolfo sorriu.
- Tu ris-te, mas não tens razão. Tem cuidado com as
raparigas. Vai fazer estas análises. Depois volta cá.
Adolfo foi ao analista. Em seguida foi ter com Annemarie
que ainda estava deitada.
- Estás com melhor aspecto
- Fui ao médico.
- Foste à inspecção para te alistares?
- Alistar para quê?
-
A guerra vai começar por causa do assassinato do arquiduque Francisco Fernando.
Adolfo esfregou as mãos.
- Que bom!
- Que bom, porquê? Isto é muito sério.
- Seríssimo!
- Dá-me um beijo. Vamos esquecer esta parvoíce.
- Agora?
- E quando havia de ser? Estamos na cama. Vamos
aproveitar.
- Esquece. Tenho de pensar no assunto.
- Estas coisas não se pensam. Fazem-se.
- Não é isso...
Annemarie abraçou-o e beijou-lhe o peito. Adolfo ficou
encharcado.
- Anne...não consigo mais. Olha o que me aconteceu.
- Não faz mal. Eu só quero umas carícias.
- Por favor, Anne. Hoje não. Chega. Tenho de me ir
lavar. Olha em que estado me encontro.
- Eu amo-te tanto, Adolfo. Deixa-me estar só um
bocadinho encostada a ti.
- Não!
- Que egoísta. Não gostas de mim?
- Gosto. Gosto muito. Vê o que sucedeu.
- Isso não tem importância.
- Eu tenho de sair.
Annemarie olhou-o de lágrimas nos olhos.
- Eu amo-te, Adolfo.
- Não digas patetices. Só pensas em porcarias!
- Chamas porcaria ao amor?
- Mal nos conhecemos.
- Já estivemos juntos na cama, doze vezes,
- Agora até contas as vezes em que estamos na cama. São
essas que contam? Não tens vergonha?
Annemarie olhou-o aterrada. Ele estava fora de si.
Dera-lhe tudo. Tentara tudo para o conquistar. Entregara-se sem defesas. Começou
a chorar. Adolfo saiu. Annemarie foi buscar o frasco de calmantes, que tinha
comprado no dia anterior. Maquinalmente tomou um a um até lhe esvaziar o
conteúdo. A dose de barbitúricos foi-lhe fatal.
CAPÍTULO X
Adolfo mostrou as análises ao médico. Ele ficou muito
sério,
- Despe-te.
Depois de o ter auscultado e observado, o médico
perguntou-lhe.
- Que idade tens?
- Vinte e cinco.
- Com que idade começaste a ter relações sexuais?
Adolfo ficou muito corado.
- Há dias contei ao doutor que eu nunca tinha
conseguido ter uma relação normal. Não sou capaz. O sexo ganha tamanho,
excito-me. Mal toco nas raparigas ejaculo imediatamente. Queria pedir para me
dar qualquer coisa que me fizesse manter a erecção.
- Os teus pais são saudáveis?
- Meu pai morreu com sessenta e cinco e minha mãe com
quarenta e seis. Eles eram primos.
- Tu és sifilítico em estado avançado. Ainda bem que não
consegues ter relações.
- Porquê, doutor?
- Porque não tens tomates.
Adolfo corou. O médico era duma rudeza invulgar.
- Mas...
- Tens só um testículo. Com a tua doença ias contaminar
todo o mundo.
- Não me diga isso.
- Digo. Porque não havia de dizer? Julgas que os
alemães são uma raça pura? São como os outros. Têm as mesmas doenças. Sofrem
dos mesmos achaques. Morrem da mesma maneira.
Adolfo sentiu-lhe o cheiro do vinho e evitou contar-lhe
o que lhe tinha sucedido quando era criança. Resolveu dar a sua opinião de
maneira diferente, mas de forma altiva.
- Impossível. Os meus pais não podiam estar
contaminados. Ao princípio andei com prostitutas judias. Se tenho sífilis foram
elas que me contaminaram. Que faço para me curar e manter a erecção?
O médico olhou-o com ar espantado e ofendido pela
arrogância do rapaz ao falar despudoradamente das prostitutas judias, sabendo
que ele era judeu. Sem qualquer espécie de consideração e ultrapassando toda a
ética profissional disse-lhe.
- Quanto à sífilis temos umas injecções de
bismuto que te vão fazer saltar paredes. Para um tipo sem tomates e sem erecção
como tu, tens um bom remédio, põe-o debaixo do cu e caga-lhe em cima.
Adolfo para não matar aquele bêbado judeu saiu porta fora
enquanto o médico ria alto e bom som.
CAPÍTULO XI
Passados dias, Adolfo tomou conhecimento do suicídio de
Annemarie.
“Mulheres!” – Pensou ele. - “Mulheres! Quem as
conseguirá entender? O que teria querido esta idiota provar com a sua atitude?
Nunca lhe dei nada. Nunca lhe ofereci nada. Infelizmente para mim, nunca
conseguiu gozar-se do meu corpo. Porquê esta atitude?”
Karl veio ter com ele.
- Soubeste?
- De quê?
- Da Annemarie.
- Esquece. Mulheres. Todas influenciadas pela Lua. Imprevisíveis,
histéricas de pensamento. As nossas mulheres arianas têm de ser diferentes. Não
podem ser emotivas.
- Não podem exagerar na emotividade.
- Têm de ser frias, calculistas, um pouco cínicas, se
não se quiserem confundir com a escória humana.
- Vem aí a guerra. Que fazes?
- Alisto-me. Estou farto desta paz que não interessa a
ninguém.
- Tu continuas a sonhar com guerras de purificação.
Guerras de lavagem de honra para que os maiores desonestos lancem uma peneira
nos olhos do povo.
- Deixa a pregação. Poupa-me.
- Quem te garantiu que a guerra é um facto?
- Von Sebottendorf. Acaba de ser nomeado Presidente de
uma das nossas lojas secretas na Baviera.
- Lá estás tu a malucar com coisas mágicas, com
ocultismo.
- Não é nada de maluquismo. No ocultismo pretendemos
conhecer o que está escondido. O ocultismo congrega um conjunto de ciências. E
aí que temos de descobrir o que é bom para o povo e como devemos actuar.
- O rapaz está mais sensato.
- Deixa-te de gozo. Fui admitido em sociedades que me
estão a iniciar.
- Iniciação?
- O iniciado é um aprendiz dos segredos da vida, do
infinito e de tudo quanto está oculto e é mágico. O iniciado passa de uma
cultura de tempo profano à cultura do tempo sagrado.
- Espantado! Simplesmente espantado. Agora,
acredito que vais longe. Afinal, o que é que fez esse Sebottendorf?
- Von Sebottendorf além de ser um homem cultíssimo
é um médium muito poderoso. Entrou na outra dimensão. Falou com os nossos mais
notáveis governantes e estrategas, os quais lhe disseram que a raça ariana
devia estar toda unida.
- Mau. Voltaste outra vez a malucar!
- Acredita se quiseres.
- Quais governantes? Quais estrategas?
- Carlos Magno; Otão, o Grande; Frederico II; Bismarck...
- Esse ainda nem teve tempo de chegar ao outro lado.
Disse-lhe o amigo rindo. - E sabes que mais? Vai-te lixar. Ainda acabo por
aturar as tuas maluqueiras nalguma trincheira escavada por outro tonto como tu,
que pensa que as questões entre as diferentes ideias se resolvem ou por
sugestão dos espíritos ou à bordoada.
CAPÍTULO XII
Adolfo Hitler foi dos primeiros voluntários a
inscrever-se nas fileiras do exército Bávaro. Era estafeta. A sua coragem e
ousadia eram notadas pelos superiores.
O sargento Max Amann que o admirava muito e que mais
tarde será o homem de negócios do Partido Operário Alemão dizia-lhe muitas
vezes.
- Tu não podes fazer a guerra sozinho. Queres matar-te?
- Morrer ao serviço da Pátria seria um bem supremo.
O desespero de Adolfo Hitler era fruto da sua vida.
Fisicamente desprezava-se. Não se considerava um homem completo. Tinha vergonha
de si mesmo. Embora tivesse pensado, muitas vezes, em se suicidar, só não o faz
porque não tem coragem. Morrer desfeito por um obus era-lhe indiferente. Por
outro lado a sua parte económica era desastrosa. Enquanto foi menor recebia a
pensão do pai e as ajudas da mãe. Morta a mãe e acabadas as pensões ele viu-se
obrigado a trabalhar, o que nunca conseguiu fazer regularmente. Isso obrigou-o
a viver, muitas vezes, em asilos de mendigos, em quartos compartilhados por
mais de dez indivíduos, todos miseráveis, todos incapazes; bêbados, ladrões,
pedintes. Ele tinha um sonho e via-se obrigado a compartilhar o albergue da
Mendelmannstrasse para não morrer de frio. De tempos a tempos conseguia alugar
um quarto de onde, normalmente, era expulso, porque não pagava o aluguer. Para
ele, morrer seria o bem supremo. Pensava-se o mais infeliz dos mortais. A morte
seria o fim dos sacrifícios e dos vexames. Fez todos os possíveis para que isso
acontecesse e arrastou o amigo Karl com ele.
Num dos violentíssimos combates na frente de batalha,
Karl ficou desfeito sem que Adolfo lhe pudesse fechar os olhos. Os
bombardeamentos eram tão intensos que em poucos minutos as trincheiras se
tomaram verdadeiros túmulos. Mal teve tempo de sair daquele inferno para se
atirar de corpo descoberto sobre o inimigo. Foi ferido com alguma gravidade,
ganhou a Cruz de Ferro por coragem e bravura. Foi promovido a cabo.
Enquanto convalescia, o sargento Max Amann convenceu-o
a frequentar as aulas de política de Gotfried Feder, que mais tarde será o
economista do Partido Nacional Socialista alemão dos trabalhadores, conhecido
pela abreviatura “NAZI” ou NSDAP.
Adolfo Hitler mostra-se o mais interessado de todos os
jovens. Aquele que nunca falta. As perguntas sobre como dirigir um país,
indicam claramente a Gotfried, que o cabo Adolfo tentaria a política, caso
chegasse vivo ao fim do conflito.
Já no final da guerra Max Amann disse-lhe.
- Escusas de gastar a pele. A guerra está no fim e
perdemo-la. Vamos ficar muito piores do que quando a começámos.
- Esta derrota, em vez de nos dividir, vai unir-nos.
Renasceremos mais fortes. A nossa capacidade de trabalho, a nossa eficiência e
determinação fará que recomecemos para honra e glória do povo alemão. De hoje
em diante ficaremos ligados para sempre.
- Não temos outra alternativa senão capitular.
- Se a guerra tem de terminar, que termine. Não fui eu
que dei ordem para começar. Se fosse, morria com ela ou tinha de a vencer nem
que para isso tivesse de sacrificar toda a nação.
- Tu deves escrever o que dizes. Este povo
precisa de alguém que seja capaz de chamar os bois pelos nomes. Tu tens uma
força esquisita dentro de ti. Nunca cheguei a compreender porque não morreste,
quando à tua volta, várias vezes, os teus companheiros foram dizimados. Tu
deves ter um espírito muito forte que te protege.
CAPÍTULO XIII
Devido às boas informações do sargento Max Amann e de
Gottfried Feder, Adolfo Hitler conseguiu não ser desmobilizado. Passou a dar
cursos de politica aos novos recrutas. A sua vida económica continuava péssima.
Ganhava mal, vivia numa caserna quase desfeita onde por companheiros tinha os
ratos com quem ele conversava e dava migalhas de pão. No entanto, preferia
estar ali sem aquecimento e sem a possibilidade de ter um banho quente do que
voltar para o albergue da Mendelmannstrasse.
Para o albergue não mais voltaria. Nunca se podia
esquecer de uma cena a que assistira e que lhe fizera mais impressão do que os
quatro anos de guerra que vivera. Um jovem, de 19 ou 20 anos, provocava todos
os dias um homem de 60. Um dia este disse-lhe.
- Tu não deves fazer isso.
- Porquê, bates-me, velho nojento?
- Olha, eu já vivi a vida. Pouco ou nada tenho a
perder. Tu és jovem, não a podes desperdiçar, nem te deves meter com os mais
velhos. Podem perder a cabeça e estragar-te essa irreverência.
- Ai é? Pois então, vê lá se gostas? - O rapaz deu-lhe
um murro que enrodilhou o homem no chão. Ele ficou de pé rindo-se e vendo-o
contorcer com dores. Quando o homem se levanta atravessa o jovem com a faca das
suas parcas refeições. A cara espantada do rapaz nunca mais lhe saiu do
pensamento. O homem fechou-lhe os olhos e disse:
- Paz à sua alma, que veio por engano, a este mundo.
A partir desse dia nunca mais voltou ao albergue.
As aulas levantaram-lhe a moral e deram-lhe o traquejo
da palavra. A guerra demonstrou-lhe que era mais corajoso do que pensara e até
mais forte do que supunha. Quando da inspecção militar em 1910 tinha sido
considerado inapto para todo e qualquer serviço militar por não ter músculos
consistentes, o peito metido para dentro, e ter só um testículo, o que lhe
ferira o orgulho e o deixara com um aspecto ainda mais doentio. Valeu-lhe o
conflito de 1914 para o qual se oferecera como voluntário e onde toda a gente
era aceite.
A Guerra de 1914 -1918 deu a Adolfo Hitler a noção
exacta da dimensão do homem: uma marionete que podia ser manobrada por quem
soubesse puxar os cordelinhos.
CAPÍTULO XIV
A 11 de Agosto de 1919 é instituída na Alemanha uma
nova ordem democrática e parlamentar; a “República de Weimar”, a que o povo
dava pouco crédito. Os seus dirigentes eram acusados de terem cedido a tudo
quanto o inimigo tinha imposto: O pagamento de 132 biliões de marcos ouro. A
perda das possessões ultramarinas e a amputação do território. A estas
exorbitantes exigências seguiu-se uma inflação incontrolável. O equilíbrio
económico torna-se impossível.
Hitler inscreve-se no Partido Operário Alemão em 16 de
Setembro de 1919, que tinha sido fundado pelo serralheiro Anton Drexler e onde
se encontrava o Professor Haushofer, um dos seus iniciadores nos profundos segredos
do ocultismo e para quem a astrologia era a arte sagrada. Sebottendorf que ele também
já conhecia e era, na altura, considerado um dos maiores astrólogos mundiais.
Também lá estão Rudolfo Hess e Rosemberg, dois outros grandes conhecedores dos
segredos da magia e do ocultismo.
Muitas das reuniões fazem-se na cervejaria Brennessel,
no bairro de Schabing em Munique, onde todos bebem muita cerveja e Adolfo
Hitler lhes bebe as palavras.
Passado algum tempo o jornalista, Dietrich Echkart,
apresenta-o ao capitão Roehm e este consegue o apoio do general Von Epp. A sua
capacidade de trabalho é enorme. É-lhe confiado o dinheiro suficiente para a
transformação do Partido Operário Alemão em Partido Nacional Socialista Alemão
dos Trabalhadores (NSDAP) Nationalsozialistischen Deutschen Arbeitterpartei,
em 1 de Abril de 1920. Este Partido Nazi toma os seus fundamentos baseado na
filosofia de Nietzsche que defende uma doutrina político-social de cariz
totalitário e imperialista, baseada na preservação da raça superior. Os
aderentes são em número reduzido.
Uma das suas grandes preocupações foi encontrar um
sinal de força que pudesse unir todo o povo ariano. Os seus discursos foram
aumentando de tom e de capacidade apelativa. Adolfo Hitler começou a dizer
aquilo que o povo gostava de ouvir e que poucos tinham coragem de dizer porque
as ameaças de prisão eram constantes.
Num dos primeiros discursos definiu as suas intenções
quanto a grupos indesejáveis na Alemanha:
“Os judeus seriam excluídos do exército, da
administração e da imprensa. Seriam também abolidos todos os rendimentos que
não fossem fruto do trabalho”.
Dietrich Eckhart estava felicíssimo com o seu
pupilo. Só o irreverente homossexual Ernest Roehm, que o conhecia bem da estúrdia
não tinha tantas certezas.
- O tipo é um miserável depravado e esquizofrénico.
Não tem onde cair morto. Andou sempre a viver de expedientes. Os judeus Teodoro
Neumann e Hanisch conhecem-no bem. Fartou-se de os cravar.
- Ele diz o contrário. Entregou-lhes quadros para eles
venderem e nunca recebeu um marco.
- Quem acreditar nele está lixado. Eu já fui na
conversa. Bem arrependido estou. Mas eu faço-lhe a cama se ele mijar fora do
penico.
- Não digas isso Roehm.
- Repito; quem acreditar nele está lixado. Ele não tem
nada a perder. Arranjou um modo de vida. Os judeus conhecem-no bem.
- Ele odeia judeus.
- Pudera! Eles não se deixam parasitar. Estou mesmo
convencido que ele tem costela de judeu.
- É judeu e está contra eles?
- Ele estaria até contra o próprio pai, se fosse vivo.
Este tipo não é flor que se cheire. Podes crer, o gajo é um judeu renegado que
criou ódio aos da sua raça, primeiro, porque eles não o ajudaram como pretendia
e depois porque viu aí uma maneira de se afirmar alemão sem levantar suspeitas.
O judeu é esperto para caraças!
- Tu estás é com os copos.
- Não
digas isso Roehm. É inteligente, trabalhador, louco até dizer basta. É o homem
que necessitamos para virar isto do avesso.
- Não
acredito nele e está tudo dito. O gajo cheira a doença e a fome. Eu não confio
nele.
- Porquê?
- O gajo
será sempre um insaciável. É o pobre, que subiu a muito custo na vida, e fica
sempre miserável devido à recordação dos tempos difíceis da infância e da
juventude. O gajo não presta.
CAPITULO XV
A guerra tinha amadurecido Adolfo Hitler. Habituara-se
a ouvir mais do que a falar, mas quando falava, a sua voz, as suas mãos e os
seus olhos galvanizavam a assistência. Rudolfo Hess e Karl Haushofer estudavam
os seus progressos e ficavam espantados com a sua extraordinária força mental.
Tanto um como outro prodigavam-lhe o máximo dos apoios. Hitler, obcecado pela política,
esquecia os amigos e quaisquer outros divertimentos.
Para a sua frustração sexual o ocultismo dava-lhe a
solução. Os iniciados que já conheciam os segredos das leis do infinito, não
deviam casar-se. O casamento multiplica os corpos em prejuízo da continência
que lhes aumentava a mediunidade, a clarividência e a memória.
A crise económica avoluma-se. O Partido Comunista Alemão
congrega milhões de aderentes enquanto o Partido Nacional socialista avança
lentamente. Ernst Roehm insiste em acções violentas.
Adolfo Hitler sabe que precisa dele e fala em
tom conciliador indo ao encontro do que Roehm deseja ouvir.
- Para isso temos de criar grupos organizados, tal
como são permitidos. Milícias armadas, verdadeiras S.A, Secções de Assalto, muitíssimo
disciplinadas.
- Que estás à espera? Estes senhores confiam em ti.
Tens de decidir.
- Precisamos de dinheiro e de homens de muita
confiança.
- Temo-los às centenas nos desmobilizados, que outra
coisa não pensam senão em ser úteis.
- Tem calma Roehm. Tal como planeaste podemos criar as
S.A. embora elas possam ser um pau de dois bicos.
- Como, um pau de dois bicos?
- Agora, servem-nos como protecção, como possibilidade
de atingir o poder, mas depois, se não forem totalmente controladas, podem-nos
causar sérios problemas. A menos que aceites em as formar e ser o seu
comandante.
- Claro, Adolfo. E para quem julgavas que eu as ia
criar?
- Dietrich, Hess e Rosemberg, concordam?
- Plenamente. E já. - Responderam os três em coro,
- Vamos acrescentar ao programa do Partido, a designação
de Cristianismo Positivo.
- Para quê? Queres lamber o rabo aos cristãos?
- Tem calma Roehm. Toda a gente sabe que tu és um iconoclasta,
mas não és burro. Precisamos de votos. Para alcançar esses votos, eu venderia a
alma ao diabo.
- Tenho de ir. Deixo-te o Rosemberg, o Hess e o
Dietrich para darem largas à paranóia.