NOTA PRÉVIA
Publicado em 1967, “De Extremo a Extremo”, continua o estudo sobre a
contradição do homem. Pela boca de Tomás da Fonseca soube da libertação do
filho e não resisti a dedicar-lhe o poema, que ele considerou perigoso. Para o
escritor, para o poeta não existem perigos. Existe amor, solidariedade,
compreensão pelas ideias de cada um.
Devido aos constantes pedidos do livro, e não tendo intenção de o voltar
a publicar, coloco-o na Internet à disposição dos mais curiosos.
DE
EXTREMO A EXTREMO
Tal como o céu
varia as suas cores, assim como ele apresenta um aspecto carregado ou a face
brilhante de um Sol esplendoroso, também o Homem tem os seus Invernos, as suas
primaveras, os seus verões e os seus Outonos.
O pensamento
do Homem varia com o rolar dos anos: é santo, é místico, é descrente, é
revolucionário é reaccionário.
A
personalidade é feita de milhões de ingredientes. Não nos podemos admirar que
hoje pense de uma maneira, amanhã de outra. Ele vive sob a Natureza, e todo
aquele que não é influenciado por Ela tem de percorrer a vida sobre um colchão
de bajulações, de reverências e de mentiras.
INCOMPREENSÍVEL
Tudo está feito.
Nada há a descobrir.
A terra é imensa.
O mar é imenso.
O universo é infinito.
Atingem-se os outros planetas.
Mas, perante tanta grandeza,
O homem vive rastejando
No meio do mato, sob o comando
Do acaso e de ignorância.
ESTE CORPO
Este corpo, pobre corpo!
Deram-mo trocado.
E, agora, a quem pedir contas?
A quem perguntar:
Por que não fui gerado
À medida do meu pensamento!?
A H U M A N I D A
D E
Pobre humanidade!
Como a lamento!
Que pensamentos vazios
Em cada cabeça!
Todo o louco lança sentenças
E eis as guerras, as destruições,
Os miseráveis e os histriões.
Pobre humanidade! Pobre humanidade!
I N C O N S C I E N T E S
Os escravos vão-se perdendo.
Ficavam dispendiosos,
O rendimento não compensava
Ter com eles tanta maçada
E sofrer enxovalhos sem conto.
Deu-se-lhes carta de alforria.
E, eles vivem em euforia
A sua desgraça de inconscientes.
A HONRA
Os meus sonhos infantis
Tinham milhões de esperanças
Via-me sempre em abastanças
Com honras.
Hoje, os tempos mudaram;
A honra, lá vai ficando,
Mas desses sonhos ideais
Estragaram-mos os mortais,
Moribundos vão estando.
A IGNORÂNCIA
A ignorância, infeliz, pertinaz
Foi falando a seu belo prazer.
Mostrava a todos o seu fátuo saber
E como de ignorantes se rodeou
Em pouco tempo foi conquistando
Simpatias gerais, muitas afeições.
Assim, ao ser descoberta,
Ninguém teve coragem e foi capaz
De expulsar tão gentil conversadora.
A L M A
Estes reflexos espontâneos
São difíceis de explicar!
Por vezes, tento estar calado
E aí me ponho a falar.
Mesmo que não acreditasse
No imaterial invisível
É difícil, quase impossível,
Na alma não acreditar.
A RAZÃO
Quando olho os tempos passados,
Esses vulcões de erros e parvoíce,
Sinto-me vexado pelo que fui.
Rebolei-me, refocilei na imundície.
Criança com ares doutorais
Dava ordens imbecis aos demais
E era obedecido cegamente.
Os anos, rolando, passaram.
Apaguei da memória a vergonha,
Construí um novo mundo,
Segui a voz da razão.
OS LOBOS
Vesti-me de todas as roupas,
Usei todos os estratagemas para agradar.
Dei-vos benesses impossíveis
Aquilatei esperanças.
Tudo em vão, tudo perdido,
A vossa fome é tamanha
Que, quanto mais comeis, mais desejais!
O AMOR
Quem te poderá cantar sem nunca te ter sentido?
Tu és a mistura clara e pura
Entre a alma, o corpo e o pensamento.
Amor que nasceste da espontaneidade
Sem filtros, sem drogas, sem perfumes.
Aos poucos e poucos conquistaste a humanidade.
Hoje, quase não te conheço;
Tal qual como as aves, cansadas de voar,
Vais perdendo forças no teu doce murmurar
E sem saber, criaste um novo amor.
AO M. POPPE
Eu conheci, o Poppe, ainda criança.
Cresceu, requintou as maneiras,
Arranjou belos casacos, novas botoeiras.
Quando o tornei a encontrar,
O Manuel, já não era o mesmo!
Abracei-o como a um irmão querido.
Então, o Poppe lançou o criançal vagido
E era ele mesmo. Só o fato mudara.
P E R S E V E
R A N Ç A
Desesperado, desfeito nas mãos do tempo
Ouvia gargalhadas atrozes, reprimidas;
Via, em cada cara, penas fingidas,
Que rindo mostravam desalento.
Lutei, lutei com todas as forças;
Aliei-me aos puros, às gentes moças,
Para alcançar, lutando, a bem aventurança.
Riram-se de mim os mais descarados,
Julgando-me perdido.
Mas vencera, aliara-me à perseverança.
CONTAR E
CONTAR
Quando pela noite chegam as estrelas,
Tenho conversas felizes, prolongadas;
Conto-lhes dissabores, coisas passadas
E, elas ouvem-me com inquietação.
Contínuo a contar, a contar pausadamente
E no seu olhar sinto a luz ardente
Que empalidece e vai chorar.
Então, conto-lhes histórias leves
E elas compreendem-me.
AO M. G.
Tu, idiota grosseiro
Que me ensinaste o teu modo de ser;
Essa bárbara visão do infinito,
Esse teu jeito impotente de vencer.
Para ti, pobre louco de ilusões,
Que pensas ganhar o mundo,
Enganando o mundo.
Para ti vai a minha tristeza.
AO M. S. G.
Podia fazer-te sofrer mil injúrias
Renegar-te do convívio habitual,
Mas para quê levar a mal
Esse teu gosto imbecil, irracional,
Se tu não compreendes o teu erro?!
Não guardo rancor contra o parvo,
Nem tão pouco ao menos avisado.
Perdoo-te e esqueço, como perdoei
A este mundo onde entrei
Sem pedidos e sem favores.
AS IDEIAS
As ideias fugiram-me, morreram,
Não tenho mais lume no olhar.
Foram-se embora, desapareceram.
Noivas do ideal e do pensamento
Que vos casais de momento a momento
Voltai à minha triste prisão.
IDEAL
Ofereci-te loucos poemas;
Rosas, muitas rosas vermelhas,
Onde, em cada pétala, iam suspiros
Em cada pensamento uma flor.
Tudo negaste, riste do ideal,
Do meu sonho
Onde existia uma c’roa de loiro.
Para ti, o ideal, não existe,
Vulgarmente, nele cuspiste,
Só desejavas oiro e oiro.
A AMBIÇÃO
A ambição perdeu-se
Por caminhos estreitos,
Quis atingir os cumes
Atingiu as cumeeiras.
Mas os homens são rudes
Nas suas ínvias maneiras;
E, o pobre, que era feliz,
Deixou de viver em paz.
CALÚNIA
Ouvi caluniar-me.
Não sei a quem, não sei onde.
Ouvi, passei, calei-me.
A calúnia calou-se
Pelo esquecimento.
CUIDAR
As inteligências são universais
E riem dos néscios ignorantes;
Vêm-se rodeados de animais
Que por acaso são pensantes.
Quem cuida sem cuidados
Alguma desilusão vai ter
Porque o ignorante é esperto
E quando ofende, faz doer.
A MENTIRA
Correu, a mentira, a cidade
Lesta como um pé-de-vento,
Mas, em breve, veio a verdade,
Que sem querer e sem maldade
Descobriu todas as patranhas.
O mentiroso, vexado,
Não resistiu coitado.
Se antes vivia dificilmente
Agora piorou, evita toda a gente.
COM AMOR
Olhei-vos a todos com amor,
E vi tantas inimizades,
Que senti grandes saudades
Dos inimigos declarados.
Peço-vos amor;
Por quê, tanta hesitação?
Tanto ódio?!
O CRENTE
INACABADO
Cego e maldizente, o crente,
Esquece as boas normas aprendidas.
Vende o bom espírito pelo mau burel
Torna-se espelho claro de novo bordel,
Insulta o mundo, grosseiramente.
Arranca da cabeça os últimos pêlos,
Dá urros de loucura, grandes, como cerros
E, num momento, deita a perder o homem,
Que durante anos de inibições, refreara.
D E S E S P E
R O
Perante a miséria que me rodeia
Sinto a dor arrastar-me ao infinito,
Leva-me um turbilhão na sua ideia
E tenho na mente, que sou maldito.
Mas perante a ignorância desenfreada
Que ri alarvemente do bem e do mal
Abre-se-me, na consciência, a vala
Do mistério do mundo, do infernal.
Já as crianças perderam a sua graça
E o amor deixou de ter o seu sabor
Ao beber da virginal taça
Nesse teu corpo de pudico amor.
P O B R E S
Dizem os pobres felizes,
Os que têm pão.
Invejam-lhes a alegria,
Os risos francos, brutais.
Os cantares dolentes, sensuais
Que a promiscuidade ensina.
Porém, nunca encontrei, nunca,
Quem trocasse palácio por espelunca.
O REI
Sou o rei do Universo.
Tenho Sol e estrelas a meus pés.
As árvores e os animais são meus.
Falo às pedras
E aos galos dos campanários.
Porém, quando os desejos
São largos, ambiciosos;